terça-feira, 11 de setembro de 2012

Filmes inesquecíveis/ Chaplin: o maior, ontem e sempre

Segundo o Filmow, eu tenho 38 dias, 8 horas e 10 minutos de filmes inéditos assistidos. Durante esse tempo, filmes bons, medianos ou mesmo os ruins, me transportaram do mundo da realidade a outro cheio de possibilidades; através deles e com eles pude sair da minha vida durante algumas horas e vivenciar várias histórias, rir, chorar, me importar, vibrar com personagens que de tão próximos parecem velhos amigos.

Com certeza eu não seria a mesma se não tivesse, aos 8 anos, recebido duas fitas VHS com o filme Titanic, que foi o início para que toda as aventuras seguintes se tornassem possíveis. Daí em diante, pude viver várias vidas, viajar a lugares diversos, conhecer os costumes dos outros cantos do mundo, viver épocas com as quais só posso sonhar, viajar em mundos paralelos, acompanhar viagens científicas das mais malucas e imprevisíveis, viver num mundo onde as máquinas dominam; em outros, onde sonhos são os portais para se descobrir os segredos dos homens e fazer conspirações, enfim... e tudo isso para buscar respostas, soluções, ou apenas para fugir de ter que buscar essas respostas, para fugir de mim mesma e no fim me encontrar novamente. Na verdade, seja para quem gosta de filmes apenas para se distrair e dar boas risadas ou para cinéfilos, a vida seria ainda mais agoniante sem o cinema, e definitivamente sem graça alguma.

Tudo isso pra dizer que, pelo menos uma vez por semana, pretendo separar alguns filmes que, na minha modesta opinião, se tornaram inesquecíveis, e que eu acho que as pessoas deveriam assistir em algum momento da vida. Fiz isso no último post que dediquei ao blog, com o filme As Horas, e pretendo dar prosseguimento. Além de compartilhar com alguns possíveis interessados, é uma forma de alimentar o blog com mais frequência e mais um pretexto para eu me deleitar sobre os meus filmes favoritos, em cuja lista tem de Titanic a Violência Gratuita. Por motivos óbvios, não vou incluir filmes de que já falei aqui em outras oportunidades, como Sr. Ninguém ou A Pele que Habito, embora sejam filmes que eu recomendo com toda a certeza. Isso dito, espero que influencie a quem interessar possa; em último caso, terá sido um prazer escrever sobre os meus "filmes-tatuagem". ;)

Lights, Camera, Action!

O segundo filme a encabeçar essa lista à la "filmes que você deve ver antes de morrer", é a minha homenagem ao homem que eu desejaria muito, mais muito, muito mesmo, dar pelo menos um abraço e agradecer por todas as risadas e lágrimas derramadas: Chaplin. Porque às vezes eu acho que tudo o que a vida quer da gente é coragem para dar boas gargalhadas na cara dela. E Chaplin sabia fazer isso como ninguém.

Sem dúvidas, a parte mais difícil é escolher apenas um filme de sua extensa obra, que contém desde filmes extremamente divertidos, datados principalmente do início de sua carreira, a filmes mais intimistas, que refletem alguns momentos difíceis pelos quais passou. De antemão, aviso logo que toda a filmografia de Chaplin vale a pena, e se você nunca viu um filme de Chaplin, não sabe o que ta perdendo. Infelizmente muita gente tem preconceito contra filmes antigos e em preto e branco, o que é uma pena, pois principalmente para quem gosta de comédia Chaplin é mil vezes mais engraçado do que muitas dessas comédias hollywoodianas meia boca de hoje em dia.

Um de seus filmes mais conhecidos por aqui deve ser Tempos Modernos, em que seu personagem mais famoso - Carlitos, o Vagabundo - vive um operário que entra em crise nervosa devido a sua rotina de trabalho, fazendo uma crítica social muito bem humorada do modo de vida do proletariado. Assim como em Tempos Modernos, em suas obras Chaplin ministrava doses muito bem equilibradas entre o drama e a comédia e assim passava sua mensagem à sociedade, sempre com muito carisma e atento às transformações pelas quais esta passava e às suas consequências. E mesmo anos e anos depois o seu talento é indubitável, aliado a sua coragem de, através da sua obra, expressar sua visão aguçada e avançada sobre o caminho que a humanidade estava percorrendo.

E nessa esteira, um de seus filmes de que mais gosto, justamente por sua coragem ao ser um dos poucos a enxergar o que realmente estava acontecendo com o mundo e se posicionar contra, é O Grande Ditador, de 1940, em que, com muita inteligência faz uma excelente paródia satirizando o nazi-fascismo que na época avançava, ao comando de Hitler e Mussolini, alternando cenas de comédia envolvendo os dois líderes e o drama dos guetos invadidos. Claro que pagou muito alto por sua irreverência: encabeçou a lista negra de Hollywood e foi banido dos EUA, para citar algumas das perseguições que sofreu.



Sinopse: em O Grande Ditador, Chaplin faz o papel de dois personagens: Adenoyd Hynkel, um ditador alemão, e um barbeiro judeu que vive em um dos guetos aterrorizados pelas tropas. Como os dois são sósias, em um dado momento são confundidos.

Merece ser visto: porque as cenas em que Chaplin, no papel de Hynkel, dança com um globo terrestre e a do discurso final deveriam ser obrigatórias para todos. Porque fazer filmes satirizando Hitler em plena década de 1940 é para poucos.

Chaplin na clássica cena em que satiriza Hitler e sua obsessão em dominar o mundo.
Abaixo, um aperitivo:



P.S.! como os filmes de Chaplin são antigos, fica difícil achar nas locadoras de bairro (as que ainda resistem, pelo menos) e algum link funfando na internê. Mas agora que o Youtube liberou filmes inteiros para compartilhamento, tudo ficou mais fácil e algumas almas elevadas postaram filmes completos de Chaplin para nossa alegria =D tem Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da Cidade e até os mais antigos, como O Garoto. Oba!!!







domingo, 8 de julho de 2012

Always the hours.

It's been a while.


Um semestre inteiro, mais precisamente. Foi o meu sexto, no qual o TCC bate à porta. Fui poucas vezes ao cinema e vi poucos filmes que tenham me interessado o suficiente para abusar do apertado tempo que tinha e escrever. Agora estou de férias, com a pulga da dúvida sobre o tema que escolhi para o TCC, mas vou relaxar um pouco em relação a isso ou senão vou pirar.

Esse post é na verdade muito pessoal. O título remete ao filme As Horas (The Hours, 2002) e é sobre ele mesmo que pretendo discorrer, mas analisando-o principalmente em relação ao meu momento atual, em virtude de alguns acontecimentos recentes. Esse filme significa muito pra mim, hoje mais do que nunca, e é muito importante que eu bote pra fora algumas impressões e sensações.

Pouco antes das férias, completei 22 anos (already!). Não tem aquele "peso" de chegar à década dos 20, nem a pretensão da maioridade absoluta dos 21, mas ainda assim é mais um passo em direção aos 30, e sabe como é, I'm not getting any younger. Um fato ocorrido nesse dia, no entanto, me causou uma introspecção que me levou a uma nostalgia e a uma consequente melancolia de apenas alguns anos atrás, aos meus 18, de como eu achava que as coisas seriam, e de como elas acabaram acontecendo - algumas delas exatamente no meu 22º aniversário.

A sensação crescente é de que estou mais velha do que os meus 22 anos poderiam dizer. Não sinto que partilho dos mesmos desejos da minha faixa etária; tendo a achar tudo muito trivial e insípido, raso demais. É como se eu já tivesse vivido algumas das melhores fases da vida, realmente experimentado tudo de que já podia, e agora é o momento em que enfrento a desilusão dos sonhos da adolescência; em que vejo que tudo o que eu achava que duraria pra sempre está caindo por terra; em que vejo anos de convivência e cumplicidade se transformarem em relações tão tênues e frágeis que se desfazem com facilidade, em apenas uma noite.

E bem... cada um tem uma maneira de lidar com suas angústias, eu acho. A minha é através da arte de pessoas que superaram as suas de alguma forma e criaram obras que inspiram a nós, pobre mortais. A obra de arte nesse caso é o filme As Horas, de Stephen Daldry, adaptação do livro homônimo de Michael Cunninghan, prêmio Pulitzer de 1999. Assisti a esse filme várias vezes, em épocas diferentes, mas ele nunca significou tanto pra mim como nesse exato momento. Pretendo ler o livro nessas férias, para que minha experiência seja completa.

Em The Hours, três histórias ocorrem paralelamente. Cada uma delas sobre uma mulher de sua época. Em 1923, Richmond, Inglaterra, Virginia Woolf (na melhor interpretação da vida de Nicole Kidman, não a toa vencedora do Oscar) escreve sua obra "Mrs. Dolloway": um dia ordinário na vida de uma mulher, "e nesse dia toda a sua vida". Em sua vida pessoal, Virginia está infeliz na cidade em que vive com o marido Leonard, e anseia por voltar à vida de Londres, de onde o marido a levou embora por causa de sua depressão e tentativas de suicídio.





Na década de 50, em Los Angeles, vive Laura Brown, interpretada por Julianne Moore. Laura é uma típica dona de casa, esposa de um homem honesto e muito atencioso a ela e ao pequeno filho, Richard. Grávida de seu segundo filho, Laura está lendo o romance Mrs. Dalloway, e como ela, Laura pensa em preparar uma pequena festa para o aniversário do marido. Mas no mesmo dia, ela percebe o quanto é infeliz e prepara um plano para se matar.

Nos anos 2000, na cidade de Nova York, Clarissa Vaughan, a personagem de Meryl Streep, é uma editora de livros. Neste dia, ela também dará uma festa para o seu grande amigo Richard, vencedor de um importante prêmio de Literatura pelo livro que escreveu. Ex-amante de Clarissa, Richard agora sofre de AIDS, está bastante debilitado e praticamente só recebe visitas de Clarissa, a quem ele carinhosamente chama de Mrs. Dalloway (Clarissa é também o nome da senhora Dalloway).

As três histórias das mulheres ocorrem paralelamente no filme, e a vida das três está de alguma forma relacionada a de Mrs. Dalloway. As três em algum momento se veem nesta senhora fictícia, e através dela enxergam o vazio e a trivialidade de suas vidas, das festas "a cobrir o silêncio", dos anos, do amor, das horas. É o processo de escrita do romance, por Virginia Woolf, que conta as histórias dessas mulheres.

Virginia estava desesperada por escapar. Aquela pequena cidade a estava matando com todo aquele silêncio e quietude, embora soubesse que o marido a tinha trazido para lá devido a recomendações médicas, para o bem da sua saúde mental. No entanto, não dera certo. Ela conseguiu, tendo a sua própria vida como inspiração, resolver o destino de Mrs. Dalloway, mas ao que parecia, o seu era apenas um e, sendo assim, ela se encaminhou para o lago, encheu o bolso do vestido de pedras e entrou na água. Nem Leonard nem os médicos, nem Richmond puderam impedir.

"You think I may one day escape?"

Laura, conforme o marido contara para o filho, era o tipo de garota solitária, que comia sozinha à mesa na faculdade. Ele não conseguira esquecê-la, e queria se casar com ela, comprar uma casa para ela, e ter com ela uma vida bem parecida com aquela que eles tinham. No dia do aniversário dele, Laura e seu pequeno filho preparam um bolo surpresa e uma pequena festa para ele. Esse era o seu papel como esposa, como mãe, preparar um bolo para o aniversário do marido. Laura sabia que ele merecia, era um marido dedicado e um pai atencioso. Tinha uma vida que muitos poderiam considerar feliz. Sua amiga, que vem visitá-la nesta mesma tarde, descobre que tem um tumor no útero e que pode não ter filhos. Diz a Laura que ela é sortuda, pois uma mulher não poderia se considerar completa até ser mãe. Mas aquela vida não fazia de Laura uma mulher completa e feliz. 

"She's a hostess, and she's incredibly confident and she's going to give a party. And maybe  because she's confident, everyone thinks she's fine...but she isn't."


Clarissa vive com Sally há dez anos, mas Richard a acusa de não cuidar tanto dela mesma, da vida dela, como cuida dele. Ele chega a conclusão de que está vivo não por ele, mas por Clarissa, para agradá-la, mas que é chegada a hora de ela deixá-lo ir. 



"- Would you be angry...
- Would I be angry if you didn't show up at the party?
- Would you be angry if I died?"

 Neste dia, em que ela está preparando uma festa para ele, Clarissa sente que algo está errado, aquele dia que começara com uma manhã tão bonita está errado, não era pra ser assim, ela não deveria estar se sentindo daquele jeito. Nesse dia eles relembram a primeira vez em que estiveram juntos, o beijo que Clarissa deu em Richard na praia. Ali, naquele quarto sujo e com cheiro de doença (sim, a cena é tão maravilhosa a esse ponto) eles relembram uma lembrança de tantos anos atrás, de algo acontecido e  perdido entre os anos. Nesse mesmo dia, Clarissa recebe a visita de um ex-amante de Richard. Ao vê-lo, após tantos anos, aumenta a sensação de algo está errado com aquele dia, com aquela festa, com a presença daquela pessoa ali em pé na sua cozinha, a lembrança do seu passado, do passado de Richard, de uma época que não dialogava com aquela.

"- I think you're courageous.
- Courageous? Why?
- To dare go visit... What I mean is, to face the fact that we have lost those feelings forever."

Ao voltar para o apartamento de Richard, uma das cenas mais maravilhosas do filme, Clarissa já sabe imediatamente o que a espera: ele havia misturado os remédios, e afastara as cortinas da janela, e se encaminhava para a janela. Mesmo que ela tentasse evitar, e ela tentou, ela sabia que não poderia impedir.
Num filme em que Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep reinam absolutas em papéis fortes e marcantes, Ed Harris destaca-se com uma atuação contundente, com um personagem difícil apesar de sua aparência fraca e debilitada. A última cena dele é, para mim, a melhor de todo o filme, com o melhor diálogo, justamente por ser este o mais simples de todos.

"- I was nineteen years old...and I'd never seen anything so beautiful. You, coming out of the glass-door in the early morning still sleepy. Isn't it strange? The most ordinary morning in anybody's life. I'm afraid I can't make it to the party, Clarissa.
- The party...doesn't matter...
- You've been good to me, Mrs. Dalloway. I love you. I don't think two people could've been happier than we've been."

Laura Brown é contatada por Clarissa após a morte de Richard. Ela é a mãe dele. É quando sabemos o que aconteceu a ela, após ter desistido do plano de suicídio. Ela admite para Clarissa que escolhera a vida e que por isso, após o nascimento do seu segundo filho, abandonara a família e se tornara empregada numa biblioteca no Canadá. A fala de Laura é maravilhosa: "seria maravilhoso dizer que me arrependi. Seria fácil... Mas o que isso significaria? O que significa arrepender-se quando você não tem escolha? É o que você consegue suportar. Então, é isso... ninguém irá me perdoar. Era a morte. Eu escolhi a vida".

Então, é isso... Esse post é mais na verdade sobre o quanto esse filme significa pra mim. A vida tão comum de pessoas comuns, e que por isso mesmo é facilmente relacionável a de qualquer um no mundo. E em relação a elas, as angústias da existência, a escolha que fazemos por causa delas. Será que somos felizes? Será que temos a obrigação de ser felizes? O que é ser feliz? Eu posso imaginar um momento em que fui muito feliz, e esse momento não é nada parecido com o que eu imagino que possa vir a ser a felicidade no futuro. E esses momentos, para outra pessoa, podem até mesmo não significar nada. Viver não é nada fácil, mas por outro lado a vida está cheia de possibilidades.


"Dear Leonard,
To look life in the face, always... to look life in the face... and to know it... for what it is... at last to know it... to love it... for what it is... and then... to put it away. Leonard... always the years between us, always the years... always the love... always the hours..."





   

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Oscar 2012| Nos cinemas: Hugo








Desde que comecei a me interessar em assistir à cerimônia do Oscar, é sempre aquela ansiedade, como se eu própria fosse uma indicada e não uma mera espectadora. Quando os segundos antecedem a abertura dos famosos envelopes, fico numa expectativa gigantesca para que seja o nome daquele para o qual estou torcendo, e quando é bato palmas e solto gritinhos de animação. Financeiramente, não ganho nada com isto, mas confesso que a emoção que sinto realmente compensa. Um dia, ainda serei uma dentre aqueles 700 sorteados do red carpet em Los Angeles.


No entanto, desde que acompanho o Oscar, nunca me senti tão satisfeita com os resultados - no geral, porque sempre tem aquelas decepções em relação as decisões da Academia. O Artista e A Invenção de Hugo Cabret, dois dos filmes pelos quais eu mais me encantei da lista do Oscar, foram os grandes vitoriosos da noite, cada um com cinco estatuetas; A Dama de Ferro, Millenium - Os Homens que não Amavam as Mulheres, Meia-Noite em Paris, A Separação e Histórias Cruzadas também foram premiados.


Foi uma das cerimônias mais emocionantes, talvez porque as disputas estavam mesmo muito acirradas. Nos  bolões em que participei, por exemplo, sempre ficava na dúvida em quem escolher para Melhor Atriz - Meryl Streep ou Viola Davis? Ambas mereciam muito (não que Glenn Close, Michelle Williams e a grata surpresa  Rooney Mara não merecessem também); e por mais que Meryl já tenha vencido a estatueta outras vezes e Viola não, é inegável a monstruosa transformação de Meryl Streep em Margaret Thatcher (até o sotaque britânico ela adquiriu, como pode!) e, afinal, já fazia mais de dez anos que Meryl tinha sido premiada, apesar de sempre ser indicada, ano após ano. Uma coisa é certa: eu ficaria contente com qualquer uma que fosse vencedora, mas quando Meryl subiu no palco para receber seu prêmio e todos os presentes a saudaram de pé, ou quando Octavia Spencer foi premiada como Melhor Atriz Coadjuvante (por Histórias Cruzadas) foi inútil conter as lágrimas.

        
Octavia Spencer se emociona ao receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por  "Histórias Cruzadas"


Achei bem equilibrada a premiação. Os principais prêmios técnicos foram para Hugo - Fotografia, Edição e Mixagem de som, Direção de arte e Efeitos Visuais (prêmio esse que, dentre os demais indicados, foi o que menos mereceu...); O Artista, meu grande favorito, ficou com os principais dos principais - Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Trilha Sonora e Figurino. Estava torcendo muito para que ganhasse os três principais, mas mesmo assim não deixei de me surpreender por Michel Hazanavicius ter vencido Scorsese e Jean Dujardin ter vencido George Clooney, apontado como favorito - embora Jean tenha se destacado muito mais que Clooney, a Academia é conhecida por seu patriotismo e embora O Artista tenha Hollywood como pano de fundo e seja falado (ou melhor, escrito) em inglês, a equipe do filme não deixa de ser francesa. E Jean Dujardin não deixa de ser francês. No fim das contas, que bom que foram imparciais e deixaram o valor artístico falar mais alto. Afinal, O Artista venceu por seus méritos próprios.


Meryl Streep e Jean Dujardin, vencedores dos prêmios de Melhor Atriz e Melhor Ator


E apesar de o embate entre Hugo e O Artista ter sido acirrado e acabado em empate, Millenium também saiu com uma estatueta de Edição. O que foi verdadeiramente uma surpresa; apesar de merecido (a mesma equipe responsável foi vencedora também em 2011, por A Rede Social), achei que Millenium ia sair de mãos vazias nessa cerimônia. Woody Allen venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original por Meia-Noite em Paris (já fazia um tempo que ele não era premiado e nem compareceu à cerimônia); Histórias Cruzadas levou o de Melhor Atriz Coadjuvante para Octavia Spencer, A Dama de Ferro o de Melhor Atriz, para Meryl Streep e Christopher Plummer, Melhor Ator Coadjuvante, por Toda Forma de Amor e A Separação, excelente filme iraniano, venceu Melhor Filme Estrangeiro.


Nós brasileiros, sim, saímos de mãos abanando mais uma vez. Das outras vezes foi até compreensível a entrega para outros indicados, mas numa disputa entre dois indicados apenas e em que a letra da canção de Rio é muito melhor que a dos Muppets, não tem outra coisa a se pensar a não ser que foi feita uma injustiça. Talvez quisessem compensar pelo fato de Rango ter levado Melhor Animação, talvez simplesmente não consigam premiar o Brasil. Desta vez o patriotismo volta a falar mais alto. Coisas do Oscar.


A cobertura completa do Oscar 2012 pode ser vista no IMDb.




A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)






Cartaz de "A Invenção de Hugo Cabret" (Filmow)


Seguindo a minha maratona de assistir aos filmes da lista do Oscar, corri para ver Hugo - campeão de indicações ao Oscar, sendo 11 ao todo. Não tinha muitas expectativas, mas sendo a direção do Scorsese, já sabia que o resultado seria bom - apesar de Hugo fugir um pouco ao estilo de suas obras. Porém, na verdade o que aconteceu foi que ao final eu me vi encantada.
Hugo Cabret é um órfão que vive em uma estação de trem, onde também trabalha escondido do inspetor, um homem amargurado da guerra cuja alegria é mandar as crianças que não têm pais para o orfanato. Antes de seu pai, um relojoeiro, morrer, Hugo o ajudava a consertar um autômato que ele encontrara num museu. Acreditando que o robô  continha uma mensagem do pai e para não se sentir tão sozinho, o menino decide concluir o trabalho inacabado de seu pai, apesar das circunstâncias lhe serem adversas.


Asa Butterfield e Jude Law em cena de "Hugo"


Assim como O Artista, Hugo também presta uma adorável homenagem ao Cinema, ao retratar a figura de Georges Méliès e celebrar suas obras. Associando o Cinema a uma  "fábrica de sonhos", a história de Hugo cruza com a de Méliès, retratando a sua paixão pela 7ª Arte e em como sua contribuição - que, no filme, ele acreditava ter sido esquecida - influenciara tantas gerações que nutriram pelos filmes o mesmo amor que ele. Da mesma forma, o filme permite àqueles espectadores que ainda não tiveram contato com o trabalho de Méliès a conhecer algumas de suas obras, como uma das mais destacadas: "Viagem à Lua".
Impossível para um cinéfilo não se sentir contemplado com tantas referências - que não são apenas cinematográficas, como também literárias. Isabella, a "companheira de aventuras" de Hugo, é criada como neta de Papa Georges, que tem uma pequena loja na estação de trem, e vive através dos livros as aventuras que gostaria de ter na sua vida - até conhecer Hugo. É muito interessante como ela associa as suas novas descobertas às histórias que conhecera nos livros.


Asa Butterfield e Chlöe Moretz em cena de "Hugo"


Todos os prêmios em que Hugo venceu foram merecidos. O filme tem um resultado impecável principalmente devido ao cuidado que é perceptível em cada cena. Não vi em 3D, mas quem viu garante que vale a pena. Neste ínterim, Hugo também venceu Efeitos Visuais (embora, como disse acima, outros indicados tenham sido negligenciados).
Os atores por sua vez têm performances carismáticas - especialmente as crianças -, seus personagens rapidamente cativam e emocionam o espectador. É, em suma, um filme lindo e gracioso. Tem aquela espécie de mágica que só o cinema sabe como proporcionar. Vale a pena sonhar com Hugo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oscar 2012| Nos Cinemas: O Artista

É com grande pesar que, devido a greve da PM na minha cidade (que durou uma semana e causou um verdadeiro caos) e a viagem que fiz logo depois, no Carnaval, reconheço o quanto minha cobertura do Oscar está fraca esse ano - principalmente em comparação com o ano passado. Mas, mesmo que seja numa corrida contra o tempo (afinal a cerimônia se dará neste domingo, 26), estou me esforçando para ter alguns palpites embasados. Nestas horas precedentes pretendo ver o máximo de filmes indicados que eu puder. Hoje comecei com O Artista (The Artist), do diretor francês Michel  Hazanavicius.

Cartaz do filme "O Artista" (Filmow)


Desde que a lista de indicados ao Oscar 2012 foi divulgada, tornaram-se cada vez mais crescentes e calorosos os comentários e as críticas em torno de O Artista, que concorre com 10 indicações, e é apontado como o favorito para a premiação deste ano e já abocanhou muitos prêmios importantes, inclusive nas categorias em que concorre ao Oscar (como a de Melhor Ator). Quando li pela primeira vez sobre O Artista, imediatamente fiquei ansiosa pra vê-lo. É um daqueles filmes que, mesmo antes de ver, você tem certeza absoluta de que vai amar - e ainda assim suas expectativas são superadas. Adoro filmes antigos, amo a fotografia em preto e branco e não tenho absolutamente nada contra filmes mudos, que o diga a maravilhosa filmografia de Chaplin, a qual tive o prazer de conferir por completo.

Em O Artista, no final da década de 20 dá-se a grande novidade da transição do cinema mudo para o falado. Como já retratado em outras obras - Cantando na Chuva (Singin' in the Rain,1952), por exemplo - tal transição exigiu um processo de adaptação pelo qual nem todos os astros e estrelas do cinema mudo conseguiram passar. Algumas muitas estrelas se apagaram durante este período, e é o caso de George Valentin (Jean Dujardin, que possui uma semelhança incrível e fascinante com Gene Kelly!), que se recusa a fazer parte do mundo falado do cinema após tanto tempo de consagração junto ao público nos filmes mudos. Como consequência ele acaba no esquecimento, ao passo em que Peppy Miller, jovem figurante a quem George ajudou a conseguir papéis importantes, torna-se uma atriz de sucesso dos filmes falados.

Jean Dujardin e Bérénice Bejo em "O Artista" (AdoroCinema)


Em poucas palavras: uma maravilhosa e inesquecível homenagem aos tempos idos do Cinema. Nem tenho certeza das palavras certas para expressar o que significa, em pleno século XXI, em meio a tantas inovações nas salas de cinema, assistir a um filme mudo e em preto e branco. Ouvir o silêncio. É uma experiência estética que todos deveriam se permitir a ter. O Artista é um filme feito para ser contemplado onde ele pertence: numa sala de cinema. Tive uma grata surpresa ao ver que a minha sessão estava cheia, e que as pessoas se encontravam encantadas ao final da projeção e com comentários animados sobre o filme. Do meu lado, particularmente, não vi nenhum sinal de cansaço ou entendiamento dos meus companheiros espectadores. Pelo contrário, eles riam com as caras e bocas de Jean Dujardin ou com o adorável cachorrinho na tela.

Jean Dujardin em "O Artista" (AdoroCinema)


A reconstituição da época é incrível. Os atores (até então desconhecidos por mim) são ótimos - e devo dizer que Jean Dujardin e Bérénice Bejo dançando juntos me lembrou demais Gene Kelly e Debbie Reynolds em Cantando na Chuva!! - a parte técnica do filme é perfeita, assim como roteiro, direção... com certeza não sou a primeira a dizer que o filme presta uma grande homenagem ao Cinema, mas uma vez que ele funciona perfeitamente em todos os aspectos que o compõem, é o mínimo que se pode dizer. Merece o prêmio máximo só por ter sido feito, mas vamos ver como a Academia o receberá amanhã. Porém uma coisa é certa: de mãos vazias é que não será.

Jean Dujardin e Bérénice Bejo em cena de "O Artista" (AdoroCinema)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Oscar 2012| Nos cinemas: Os Descendentes

Já foi dada a largada para a premiação mais importante do Cinema! Após a cerimônia do Globo de Ouro, foram anunciados, na última terça-feira, 24, os indicados ao Oscar 2012 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Empolgada, conferi um a um, trailer por trailer, e gostei bastante do que vi. A seleção está bem bacana. E como me acostumei a fazer, esse ano pretendo mais uma vez assistir a pelo menos todos os indicados a Melhor Filme e vou usar o espaço do Que Filme Vi Hoje? para registrar as minhas modestas impressões.


Alguns dos indicados, como Meia-Noite em Paris e A Árvore da Vida estrearam nos cinemas brasileiros no ano passado, mas a grande maioria só chega por aqui entre o final de janeiro e poucas semanas antes da cerimônia (que acontecerá em 26 de fevereiro). A exceção é Tão Forte e Tão Perto, cuja estreia no Brasil só deverá ocorrer em março. Uma pena, pois o trailer me deixou com muita vontade de conferi-lo em primeira mão no cinema e de preferência que fosse antes da cerimônia.


No início de janeiro estreou Cavalo de Guerra, drama conduzido por Spielberg. Nesta última semana do mês foi a vez de Os Descendentes, drama familiar estrelado por George Clooney, do diretor Alexander Payne, vencedor do Oscar pelo roteiro de Sideways. Ainda não conferi o do Spielberg, mas para compensar assisti ao de Payne logo na sua estreia.

Cartaz do filme "Os Descendentes" (Filmow)


A história de Os Descendentes não faz um grande filme, por assim dizer, mas em poucas linhas cumpre bem aquilo que se dispõe a fazer. É verdade que não é preciso uma história extraordinária e mirabolante para que surja a partir daí um filme notável, e que enredos simples podem sim formar filmes esplêndidos. Mas também é verdade que o tema central desse filme traz mais do mesmo e pelo menos não é o meu candidato favorito.


Na trama, Clooney interpreta um pai afastado da mulher e das filhas, mais concentrado nos negócios, cuja esposa acaba de sofrer um sério acidente de barco e entra em coma. Esta situação inesperada, acrescida do fato de que a grande propriedade da família no Havaí está para ser vendida, faz com que ele busque uma reaproximação com as filhas e com seus parentes familiares.

Cena de "Os Descendentes" (Adoro Cinema)


É um bom drama de família, bem do jeito que A Academia gosta, com determinadas "lições" ao longo da história. Mas essa não é uma observação depreciativa, não. Drama é um dos meus gêneros preferidos, e os familiares em especial também me agradam. Acredito que o filme vale a pena ser visto e não sei quanto a indicação ao Oscar, mas por outro lado não acho que seja uma indicação não-merecida.


Um dos aspectos mais favoráveis de Os Descendentes talvez seja o fato de que o protagonista consegue aproximar-se do espectador, despertando nele uma empatia que o estimula a acompanhar a história, torcendo pelo seu bem. Muitos dos sentimentos demonstrados pelo personagem de Clooney encontram aceitação da parte da plateia, que assente e imagina que sentiria o mesmo se estivesse em seu lugar, ainda que tomasse atitudes diferentes. Outro aspecto notável é que, apesar de se tratar de um drama envolvendo conflitos familiares, o filme não carrega um tom sombrio ou desanimador, como é característico em películas com temática parecida, mas pelo contrário, sustenta um tom leve praticamente o tempo todo. Afinal, nada na vida é tão devastador assim.

George Clooney em cena de "Os Descendentes" (AdoroCinema)


Porém, há umas inserções que, a meu ver, foram realmente desnecessárias. O elenco no geral está ótimo e dá conta perfeitamente do tom leve do filme, embora sem perder a seriedade do drama. Não havia a necessidade, por exemplo, do personagem Sid na história. Ele é totalmente dispensável, assim como as cenas em que aparece, visivelmente para introduzir um ar descontraído e arrancar algumas risadas da plateia. Como pontuei, o filme já não tem uma carga dramática muito pesada por conta de seu enredo e do entrelaçamento da questão imobiliária com a trama central do roteiro. A inserção deste personagem e de suas "cenas engraçadas", portanto, só faz quebrar a linearidade do filme. Há mesmo uma cena em que Clooney conversa com este personagem e minha vontade era de poder apertar o botão FF para a próxima cena importante do filme.

Cena de "Os Descendentes" *(AdoroCinema)

No mais, é um bom filme. Apesar de não trazer nada de realmente novo, é uma abordagem diferente, num cenário diferente (Havaí), com um elenco diferenciado - trazendo, pelo menos para mim, a grata surpresa que foi ver a atuação de Shailene Woodley, que no filme faz a filha mais velha de Clooney. Reitero que vale a pena ser visto, e, se não torço por ele na categoria de Melhor Filme, não posso dizer o mesmo quanto à de Melhor Ator. Embora, é claro, ainda seja um pouco cedo para fazer as apostas. Que venham as próximas estreias!




sábado, 14 de janeiro de 2012

Violência Gratuita?



Uma das coisas que eu mais gosto sobre o Cinema são os mais variados tipos de histórias e situações que são possibilitadas, desde entretenimento do mais puro e simples aos enredos mais complexos que estimulam diversas sensações no espectador, confrontando a sua posição confortável enquanto tal. Nesse ínterim, devo confessar, prefiro os filmes que se encaixam na segunda descrição. Eles sugerem que não há limites para o que se pode fazer no Cinema, que sempre há possibilidade de reinvenção.


Quando me vi diante de "Violência Gratuita" (Funny Games, 2007), percebi logo pela reação dos que já tinham assistido que se tratava de um filme que mexia com a condição, aparentemente simples, do espectador. Não conhecia nenhum trabalho anterior do diretor Michael Haneke, mas pude perceber que era do tipo "ame-o ou deixe-o". Estava mais do que instigada para assisti-lo.


Cartaz nacional de "Violência Gratuita" (Filmow)


No filme, Ann vai passar o fim de semana em sua casa de veraneio perto do lago com o marido, George, e o filho pequeno. São surpreendidos, logo após a chegada, por dois jovens rapazes, muito educados, vestidos imaculadamente de branco. Um deles ajuda, solicitamente, o pai e o filho a montarem o barco, enquanto o outro faz a Ann o singelo pedido de quatro ovos para levar à casa de amigos onde está hospedado. De repente, porém, ela começa a se sentir incomodada e intimidada pela presença dos jovens, que não demoram muito para mostrar que são dois psicopatas que se divertem com torturas físicas e psicológicas. 



Naomi Watts e Brady Corbet em cena de "Violência Gratuita" (2007)



O filme tem duas versões: a original, de 1997, e o remake, lançado dez anos depois, ambos pelo mesmo diretor. As versões são idênticas cena a cena, até mesmo a casa que serviu de locação tem as mesmas proporções em ambos; a diferença está apenas no idioma falado, que no original é alemão e no remake, em inglês; e no elenco. Quanto a este quesito, fico com o remake: Michael Pitt está completamente sádico e pervertido em sua atuação, em pé de igualdade com o ator Arno Frisch, que interpretou o mesmo papel na versão original (e Pitt já tem, naturalmente, cara de psicopata =X). Além de seu companheiro, interpretado por Brady Corbet, ter uma semelhança física que só intensifica a relação doentia estabelecida entre eles. O elenco do remake também conta com Naomi Watts e Tim Roth.

Arno Frisch em "Violência Gratuita" (1997)

No mais, a essência continua perturbadora. O filme se expõe como tal, como pode ser evidenciado nas cenas em que o personagem Paul dialoga com o espectador (genial) e, especialmente, a do controle remoto - cena essa que gera muitas controvérsias e reações das mais diversas - em que Paul aciona o controle remoto da televisão e "rebobina" o filme ao qual estamos assistindo, bem diante de nossos olhos, a modo de poder desfazer uma ação que, acredito, teria agradado aos espectadores, se não fosse pela atitude do personagem. Muitos não gostaram dessa cena no filme porque ela tiraria o "efeito filme" do filme (em que os atores, ao interpretarem os seus personagens, fingem que não sabem que estão fazendo um filme, como se tudo fosse realidade). 


Cena do filme "Violência Gratuita" (2007)


O buraco, como dizem, é mais embaixo. O melhor do Cinema é que nele tudo é possível. E em Violência Gratuita não podia ser diferente. O espectador é colocado na posição de cúmplice dos sádicos, testemunha ocular da tortura para com as vítimas. O espectador é um voyeur (ah, Hitchcock!). Nesse filme em específico, justamente porque sabemos que se trata de um filme (de uma representação do real, portanto) simplesmente estamos acompanhando o caso, desejando talvez que tudo acabe (bem, de preferência). Mas é tudo tirado do espectador de uma forma atônita – e, devo dizer, genial.


Em 1960, Michael Powell testou esse poder do Cinema em seu filme "A Tortura do Medo" (Peeping Tom), que foi um fracasso nas bilheterias e afundou a carreira do diretor. Na trama, Mark Lewis, quando criança, era cobaia do pai, um cientista interessado em estudar os efeitos do medo no sistema nervoso. Ao atingir a maturidade, Lewis, apesar de um homem muito educado e distinto, torna-se um psicopata que filma suas vítimas (mulheres) no momento do ataque, somente para assistir às suas expressões de horror no conforto da sua casa. 


"A Tortura do Medo" (1960)


O fracasso do filme à época está explicado, assim como Violência Gratuita dividiu a opinião do público, ainda hoje; afinal, nossa posição deixa de ser tão confortável como sempre gostamos que seja. Ao olhar para a câmera Violência Gratuita quebra o efeito "realidade suspensa" e, ao "falar" diretamente com o espectador, sugere que somos parte daquilo que estamos vendo; uma plateia cúmplice das histórias que são apresentadas; que sabe de tudo o que está acontecendo - ou, como prefere, gosta de saber de tudo que se passa antes mesmo que o personagem na tela o saiba. Somando-se a isto o fato de que, antes de ser considerado como arte, o cinema era, sobretudo, uma prática de diversão, pode-se inferir que em A Tortura do Medo especificamente o espectador compartilha da mesma posição de Mark no que se refere à sua maior obsessão, a escopofilia, assim como torna o espectador de Violência Gratuita um conivente dos ataques. Sem contar que o último joga o tempo todo com as esperanças e palpites do público ao longo do filme. Pode-se compreender então por que os filmes não são exatamente os preferidos dos últimos tempos.
Mas talvez o mais genial de tudo em ambos os filmes seja o fato de que a violência em si não é mostrada em momento algum.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sr. Ninguém e das escolhas da vida

Numa noite dessas entre amigos, em que everything goes e falamos sobre coisas várias, eis que, ao som de 30 Seconds to Mars, eu e uma amiga enveredamos por uma conversa sobre o clipe Hurricane e suas mil e umas referências, daí passando mais especificamente a falar sobre Jared Leto e sua carreira cinematográfica. Eu falei muitíssimo sobre Requiém para um Sonho (2001), que era o trabalho mais significativo do Jared que eu já tinha visto até então, e para minha surpresa ela falou muito mais sobre um filme que eu nunca tinha ouvido falar antes: Mr. Nobody (2009).

Cartaz do filme "Sr. Ninguém" (Filmow)


Fiquei então com muita vontade de assistir ao filme - seja pelo tanto que minha amiga falou dele, seja por causa do Jared (sou um pouco groupie cinematográfica :x), seja pelo tema do filme abordar o que mais tem para ser abordado e que nunca vai me cansar: a vida. Mais especificamente, as escolhas da vida.


Nemo Nobody tem 118 anos e é o último mortal num mundo em que os seres humanos tornaram-se imortais. Mas nada se sabe ao certo sobre ele, sobre seu passado, sobre como ele viveu sabendo que um dia morreria.
Nemo Nobody tem a esperança de reencontrar seu amor de infância, Anna.
O casamento de Nemo e Elise está passando por uma crise, assim como o casamento de Nemo e Gene.
Nemo Nobody tem 15 anos e está apaixonado por Anna, que é a filha do seu padrasto.
Nemo tem 15 anos, cuida do pai e se apaixonou por Elise, que na verdade ama outro, então ele resolve dar uma chance para Gene.
Nemo Nobody é um menino de 9 anos cujos pais se separaram, e agora ele está numa estação de trem e não sabe se vai morar com a mãe ou com o pai.




Qual destas vidas é a "certa"? Qual destas foi de fato a vida que Nemo viveu? Na verdade, o filme segue por todas estas vidas, contando o seu desenrolar sem seguir uma sequência cronológica. Cada rumo da vida de Nemo depende de uma decisão, de uma escolha sua. Cada escolha vai seguir por um caminho diferente.
Praticamente tudo na nossa vida envolve uma decisão. Desde as coisas mais simples, como escolher o sabor de um sorvete ou entre morar com a mãe ou com o pai. Muitas dessas escolhas tornam-se muito difíceis de serem tomadas, justamente por não sabermos as implicações no futuro. Muitas vezes desejamos que o nosso futuro se mostrasse, para que fôssemos capazes de fazer a melhor escolha.

Cena de "Sr. Ninguém" (2009)


Na filosofia grega existia a ideia do Lethe, um rio do Hades no qual, ao nele "beber", a alma se esqueceria de todas as suas vidas passadas. Em Sr. Ninguém tem-se uma ideia muito semelhante, de acordo com a qual todos nós já sabemos de toda nossa vida futura antes mesmo de nascer, e quando é chegada nossa vez anjos pousam os dedos em nossos lábios e nós mergulhamos numa mesma espécie de rio, esquecendo assim de tudo o que anteriormente sabíamos ao nascer. Assim, tem início a nossa vida de fato e, com ela, todos os processos de fazer escolhas e tomar decisões e a primeira delas é escolher os nossos pais - o que, particularmente, eu adorei! Afinal, por que não seria possível um vínculo com a nossa futura família antes mesmo do nascimento?!


Um incidente acontece com Nemo, porém: os anjos se esquecem de "marcá-lo" e assim ele nasce já sabendo o que vai acontecer em sua vida. E é aí que está: por saber os vários caminhos que a sua vida pode seguir, a depender da escolha que fizer, ele é incapaz de decidir. Não adianta nos iludir, portanto: ainda que a gente soubesse o que cada escolha acarretaria em nossa vida, não seria mais fácil escolher. Seria ainda mais difícil, eu acredito.


É possível ver vários momentos de nossa vida durante as "várias vidas" de Nemo que vemos durante o filme. Esse é um dos motivos pelos quais ele se tornou tão especial pra mim. Afinal, quantas e quantas vezes já nos perguntamos: "não teria sido melhor se eu tivesse feito aquilo ao invés disso?", "e se eu tivesse viajado com fulano aquele dia ao invés de ter ficado e ido ao show?" O que teria me acontecido? Sempre pensando no que poderíamos ganhar de bom nestas situações, mas também não seria possível que eu sofresse um acidente durante a viagem? E o que fica diante disso tudo, já que, ok, escolhas geralmente não são fáceis e  pensamos muito antes de fazê-las, ponderando que não podemos ter tudo ao mesmo tempo e que, como já cantava Charlie Brown, "cada escolha, uma renúncia"? Qual das vidas vividas por Nemo é a certa? Qual deveria ter sido a melhor escolha para ele?



Feliz ou infelizmente só podemos viver uma vida, sem direito a olhar pra frente nem para trás. Praticamente tudo nela envolve uma escolha, até mesmo uma não-escolha é uma escolha. E, uma vez que a escolha não é feita, tudo permanece possível... Daí que 'tudo na nossa vida poderia ter sido de um jeito diferente e ainda assim teria o mesmo significado'. 'Cada caminho é um caminho certo'.


P.S.: Jared Leto conseguiu me impressionar ainda mais do que havia feito em Requiém para um Sonho!
P.S.2. Além de tudo isso, a fotografia e a trilha sonora fazem o filme ser ainda mais maravilhoso!