sábado, 28 de janeiro de 2012

Oscar 2012| Nos cinemas: Os Descendentes

Já foi dada a largada para a premiação mais importante do Cinema! Após a cerimônia do Globo de Ouro, foram anunciados, na última terça-feira, 24, os indicados ao Oscar 2012 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Empolgada, conferi um a um, trailer por trailer, e gostei bastante do que vi. A seleção está bem bacana. E como me acostumei a fazer, esse ano pretendo mais uma vez assistir a pelo menos todos os indicados a Melhor Filme e vou usar o espaço do Que Filme Vi Hoje? para registrar as minhas modestas impressões.


Alguns dos indicados, como Meia-Noite em Paris e A Árvore da Vida estrearam nos cinemas brasileiros no ano passado, mas a grande maioria só chega por aqui entre o final de janeiro e poucas semanas antes da cerimônia (que acontecerá em 26 de fevereiro). A exceção é Tão Forte e Tão Perto, cuja estreia no Brasil só deverá ocorrer em março. Uma pena, pois o trailer me deixou com muita vontade de conferi-lo em primeira mão no cinema e de preferência que fosse antes da cerimônia.


No início de janeiro estreou Cavalo de Guerra, drama conduzido por Spielberg. Nesta última semana do mês foi a vez de Os Descendentes, drama familiar estrelado por George Clooney, do diretor Alexander Payne, vencedor do Oscar pelo roteiro de Sideways. Ainda não conferi o do Spielberg, mas para compensar assisti ao de Payne logo na sua estreia.

Cartaz do filme "Os Descendentes" (Filmow)


A história de Os Descendentes não faz um grande filme, por assim dizer, mas em poucas linhas cumpre bem aquilo que se dispõe a fazer. É verdade que não é preciso uma história extraordinária e mirabolante para que surja a partir daí um filme notável, e que enredos simples podem sim formar filmes esplêndidos. Mas também é verdade que o tema central desse filme traz mais do mesmo e pelo menos não é o meu candidato favorito.


Na trama, Clooney interpreta um pai afastado da mulher e das filhas, mais concentrado nos negócios, cuja esposa acaba de sofrer um sério acidente de barco e entra em coma. Esta situação inesperada, acrescida do fato de que a grande propriedade da família no Havaí está para ser vendida, faz com que ele busque uma reaproximação com as filhas e com seus parentes familiares.

Cena de "Os Descendentes" (Adoro Cinema)


É um bom drama de família, bem do jeito que A Academia gosta, com determinadas "lições" ao longo da história. Mas essa não é uma observação depreciativa, não. Drama é um dos meus gêneros preferidos, e os familiares em especial também me agradam. Acredito que o filme vale a pena ser visto e não sei quanto a indicação ao Oscar, mas por outro lado não acho que seja uma indicação não-merecida.


Um dos aspectos mais favoráveis de Os Descendentes talvez seja o fato de que o protagonista consegue aproximar-se do espectador, despertando nele uma empatia que o estimula a acompanhar a história, torcendo pelo seu bem. Muitos dos sentimentos demonstrados pelo personagem de Clooney encontram aceitação da parte da plateia, que assente e imagina que sentiria o mesmo se estivesse em seu lugar, ainda que tomasse atitudes diferentes. Outro aspecto notável é que, apesar de se tratar de um drama envolvendo conflitos familiares, o filme não carrega um tom sombrio ou desanimador, como é característico em películas com temática parecida, mas pelo contrário, sustenta um tom leve praticamente o tempo todo. Afinal, nada na vida é tão devastador assim.

George Clooney em cena de "Os Descendentes" (AdoroCinema)


Porém, há umas inserções que, a meu ver, foram realmente desnecessárias. O elenco no geral está ótimo e dá conta perfeitamente do tom leve do filme, embora sem perder a seriedade do drama. Não havia a necessidade, por exemplo, do personagem Sid na história. Ele é totalmente dispensável, assim como as cenas em que aparece, visivelmente para introduzir um ar descontraído e arrancar algumas risadas da plateia. Como pontuei, o filme já não tem uma carga dramática muito pesada por conta de seu enredo e do entrelaçamento da questão imobiliária com a trama central do roteiro. A inserção deste personagem e de suas "cenas engraçadas", portanto, só faz quebrar a linearidade do filme. Há mesmo uma cena em que Clooney conversa com este personagem e minha vontade era de poder apertar o botão FF para a próxima cena importante do filme.

Cena de "Os Descendentes" *(AdoroCinema)

No mais, é um bom filme. Apesar de não trazer nada de realmente novo, é uma abordagem diferente, num cenário diferente (Havaí), com um elenco diferenciado - trazendo, pelo menos para mim, a grata surpresa que foi ver a atuação de Shailene Woodley, que no filme faz a filha mais velha de Clooney. Reitero que vale a pena ser visto, e, se não torço por ele na categoria de Melhor Filme, não posso dizer o mesmo quanto à de Melhor Ator. Embora, é claro, ainda seja um pouco cedo para fazer as apostas. Que venham as próximas estreias!




sábado, 14 de janeiro de 2012

Violência Gratuita?



Uma das coisas que eu mais gosto sobre o Cinema são os mais variados tipos de histórias e situações que são possibilitadas, desde entretenimento do mais puro e simples aos enredos mais complexos que estimulam diversas sensações no espectador, confrontando a sua posição confortável enquanto tal. Nesse ínterim, devo confessar, prefiro os filmes que se encaixam na segunda descrição. Eles sugerem que não há limites para o que se pode fazer no Cinema, que sempre há possibilidade de reinvenção.


Quando me vi diante de "Violência Gratuita" (Funny Games, 2007), percebi logo pela reação dos que já tinham assistido que se tratava de um filme que mexia com a condição, aparentemente simples, do espectador. Não conhecia nenhum trabalho anterior do diretor Michael Haneke, mas pude perceber que era do tipo "ame-o ou deixe-o". Estava mais do que instigada para assisti-lo.


Cartaz nacional de "Violência Gratuita" (Filmow)


No filme, Ann vai passar o fim de semana em sua casa de veraneio perto do lago com o marido, George, e o filho pequeno. São surpreendidos, logo após a chegada, por dois jovens rapazes, muito educados, vestidos imaculadamente de branco. Um deles ajuda, solicitamente, o pai e o filho a montarem o barco, enquanto o outro faz a Ann o singelo pedido de quatro ovos para levar à casa de amigos onde está hospedado. De repente, porém, ela começa a se sentir incomodada e intimidada pela presença dos jovens, que não demoram muito para mostrar que são dois psicopatas que se divertem com torturas físicas e psicológicas. 



Naomi Watts e Brady Corbet em cena de "Violência Gratuita" (2007)



O filme tem duas versões: a original, de 1997, e o remake, lançado dez anos depois, ambos pelo mesmo diretor. As versões são idênticas cena a cena, até mesmo a casa que serviu de locação tem as mesmas proporções em ambos; a diferença está apenas no idioma falado, que no original é alemão e no remake, em inglês; e no elenco. Quanto a este quesito, fico com o remake: Michael Pitt está completamente sádico e pervertido em sua atuação, em pé de igualdade com o ator Arno Frisch, que interpretou o mesmo papel na versão original (e Pitt já tem, naturalmente, cara de psicopata =X). Além de seu companheiro, interpretado por Brady Corbet, ter uma semelhança física que só intensifica a relação doentia estabelecida entre eles. O elenco do remake também conta com Naomi Watts e Tim Roth.

Arno Frisch em "Violência Gratuita" (1997)

No mais, a essência continua perturbadora. O filme se expõe como tal, como pode ser evidenciado nas cenas em que o personagem Paul dialoga com o espectador (genial) e, especialmente, a do controle remoto - cena essa que gera muitas controvérsias e reações das mais diversas - em que Paul aciona o controle remoto da televisão e "rebobina" o filme ao qual estamos assistindo, bem diante de nossos olhos, a modo de poder desfazer uma ação que, acredito, teria agradado aos espectadores, se não fosse pela atitude do personagem. Muitos não gostaram dessa cena no filme porque ela tiraria o "efeito filme" do filme (em que os atores, ao interpretarem os seus personagens, fingem que não sabem que estão fazendo um filme, como se tudo fosse realidade). 


Cena do filme "Violência Gratuita" (2007)


O buraco, como dizem, é mais embaixo. O melhor do Cinema é que nele tudo é possível. E em Violência Gratuita não podia ser diferente. O espectador é colocado na posição de cúmplice dos sádicos, testemunha ocular da tortura para com as vítimas. O espectador é um voyeur (ah, Hitchcock!). Nesse filme em específico, justamente porque sabemos que se trata de um filme (de uma representação do real, portanto) simplesmente estamos acompanhando o caso, desejando talvez que tudo acabe (bem, de preferência). Mas é tudo tirado do espectador de uma forma atônita – e, devo dizer, genial.


Em 1960, Michael Powell testou esse poder do Cinema em seu filme "A Tortura do Medo" (Peeping Tom), que foi um fracasso nas bilheterias e afundou a carreira do diretor. Na trama, Mark Lewis, quando criança, era cobaia do pai, um cientista interessado em estudar os efeitos do medo no sistema nervoso. Ao atingir a maturidade, Lewis, apesar de um homem muito educado e distinto, torna-se um psicopata que filma suas vítimas (mulheres) no momento do ataque, somente para assistir às suas expressões de horror no conforto da sua casa. 


"A Tortura do Medo" (1960)


O fracasso do filme à época está explicado, assim como Violência Gratuita dividiu a opinião do público, ainda hoje; afinal, nossa posição deixa de ser tão confortável como sempre gostamos que seja. Ao olhar para a câmera Violência Gratuita quebra o efeito "realidade suspensa" e, ao "falar" diretamente com o espectador, sugere que somos parte daquilo que estamos vendo; uma plateia cúmplice das histórias que são apresentadas; que sabe de tudo o que está acontecendo - ou, como prefere, gosta de saber de tudo que se passa antes mesmo que o personagem na tela o saiba. Somando-se a isto o fato de que, antes de ser considerado como arte, o cinema era, sobretudo, uma prática de diversão, pode-se inferir que em A Tortura do Medo especificamente o espectador compartilha da mesma posição de Mark no que se refere à sua maior obsessão, a escopofilia, assim como torna o espectador de Violência Gratuita um conivente dos ataques. Sem contar que o último joga o tempo todo com as esperanças e palpites do público ao longo do filme. Pode-se compreender então por que os filmes não são exatamente os preferidos dos últimos tempos.
Mas talvez o mais genial de tudo em ambos os filmes seja o fato de que a violência em si não é mostrada em momento algum.