quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nos Cinemas: A Pele Que Habito

Até muito recentemente ainda não tinha tido a oportunidade de assistir a um filme de Almodóvar - eu sei, ainda tenho muitos pecados cinematográficos a pagar! - até quando me vi um dia cara a cara com "Má Educação" (2004) na locadora. Eu fiquei fascinada com a engenhosidade e criatividade daquele roteiro, que explorava o melhor do homem que pode se transformar em seu pior, como a paixão por alguém ou por algo que se faz, que pode levar a atitudes intensas e extremas. 
 
Apesar de as situações acontecerem de tal maneira independente do que possa causar no espectador - como confusão ou estranhamento - a força do roteiro o mantém interessado nessa que é uma história que eu nunca vi parecida em nenhum outro filme, ainda que outras obras já tivessem explorado, por exemplo, o uso da metalinguagem. A mesma narrativa é contada mais de uma vez dentro do filme e é impressionante como ainda "rende" e se desdobra em uma nova e surpreendente descoberta. Um trabalho admirável cujo sucesso se deve também à melhor atuação que eu já vi do Gael García Bernal - e eu que achava que ele tinha dado o seu melhor em Ensaio Sobre a Cegueira (2008).
 
Cena do filme "Má Educação" (AdoroCinema)
 
Agora, tive uma nova oportunidade de ver uma obra mais atual de Almodóvar nos cinemas, "A Pele que Habito" (2011). Incluí na lista dos filmes que gostaria de ver no cinema esse mês, mas a vontade de ver se intensificou quando passei a ver os comentários de quem já tinha assistido. De "intrigante, obscuro, novo Almodóvar" a "nojento, sem profundidade". Como minha bagagem almodoveriana é muito pequena, não poderia dizer com propriedade as diferenças existentes entre as obras anteriores do cineasta para esta, porém alguns aspectos me remeteram a Má Educação e deu pra identificar o Almodóvar por detrás daquela tela.

Vou tentar exercer a difícil tarefa de falar dos filmes sem soltar muitos spoilers, porém se alguém que por acaso estiver lendo ainda não tiver visto nenhum dos dois, é melhor que pare por aqui e vá direto pra locadora ou pro cinema mais próximos!

Por mais que eu tivesse lido a sinopse do filme várias vezes antes de assisti-lo, durante a primeira parte do filme confesso que fiquei confusa, sem saber direito qual era a trama. Acontece que, como evidenciado em Má Educação, em A Pele que Habito não há uma história apenas a ser contada durante toda a projeção, como é o tradicional das narrativas cinematográficas (em especial as hollywoodianas), mas sim diversos pontos de vistas, de histórias de vida dos personagens, que são guiados por suas paixões, por seus desejos, por seus erros e por suas obsessões. São essas histórias, contadas numa sequência não necessariamente cronológica dos fatos que vão construindo, "moldando" o filme e que podem causar confusão no espectador - embora mantendo-o preso, atado, a ele; confuso porém instigado, e convenhamos que não é todo filme que consegue casar esta união tão tênue. Em ambos os filmes o ritmo não é exatamente de deixar o espectador "sem fôlego", sem conseguir piscar nem nada do tipo. Pelo contrário, Almodóvar não tem pressa alguma em tecer a sua narrativa (inclusive, outros tipos de comentários que vi sobre A Pele que Habito eram reclamações por causa de seu ritmo lento). Logo de início, em ambos os filmes citados do diretor, nossa confusão em entender para onde estamos sendo levados sugere que há algo a ser mais profundamente abordado, e que isso não se dará da forma mais confortável para o espectador, o qual já está acostumado a um estilo que "entrega o jogo"  sem lhe causar maiores "transtornos".
 
Cena do filme "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)
 
Em Má Educação era um jovem ator que, em busca de melhores oportunidades, procura um diretor de cinema que no passado fora seu colega de escola e também seu primeiro amor. Em A Pele que Habito, trata-se de um cirurgião que perde tragicamente a esposa e que devido a esse acidente se dedica inteiramente a um estudo sobre enxertos de pele e, mais especificamente, sobre um tipo de pele resistente a queimaduras e outros tipos de males aos quais a pele humana está suscetível e que poderia tê-la salvado. Em ambos, para obter êxito em seus intentos os personagens se  envolvem em níveis cada vez mais complexos com os demais, buscando extrair deles o que lhes convêm; guardadas as devidas proporções dos dois filmes, sentimentos de vingança, paixão, obsessão e loucura coexistem, intensificando os laços que os unem e que  também podem destruí-los.

Como citei anteriormente, as sinopses parecem simples; tem-se muitas impressões sobre os caminhos para os quais poderemos ser levados, mas raramente chegamos onde pensamos que chegaríamos. Na sala onde assisti À Pele que Habito, por exemplo, conforme novas descobertas eram reveladas ao público, não foram poucas as expressões de espanto (inclusive minhas próprias), o remexer nas poltronas, a incredulidade e os "não é possível". Acontece que no Cinema é possível, sim, e apesar da pouca profundidade que possuo a respeito dos trabalhos anteriores do diretor espanhol, principalmente depois de ter assistido À Pele Que Habito, sinto que não há nada impossível em seus excelentes roteiros.
 
Cena do filme "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)
 
Conforme ia descobrindo mais sobre o misterioso cirurgião Robert Ledgard (que atuação foi essa do Banderas??!!), lembrei do também misterioso Ignacio Rodriguez (ou Ángel/Juan/Zahara) de Má Educação, ambos personagens apaixonados, vingativos e determinadamente egoístas a atingir um objetivo até que este se torna o ponto principal de suas vidas, uma obsessão da qual nem mesmo eles se dão conta, seja pela vontade de se tornar um grande ator de cinema e ainda ter o amor que fora do seu irmão para si, seja pela vontade de unir medicina e paixão e buscar, dia após dia, por uma solução perfeita que poderia ter salvado alguém de quem se gosta muito - ou "recriar" este alguém.
 
Além dos aspectos da personalidade humana e dos extremos (e paradoxalmente tão próximos) amor-ódio presentes e tão perturbadoramente explorados, tanto em Má Educação quanto em A Pele que Habito questões delicadas, como pedofilia e experimentos em humanos, permeiam a vida dos personagens sem serem exatamente expostas com o objetivo de discussão; não são oferecidas saídas nem respostas. É oferecido um tipo diferente de cinema, que desafia o seu espectador, que não tem a pretensão de agradá-lo nem diverti-lo.
 
Os personagens de Almodóvar são tão complexos quanto é possível para um humano. Tudo ia bem para o Dr. Ledgard até a esposa sofrer um acidente e suicidar-se, a filha ser testumunha e ficar para sempre traumatizada até que termina por ter o mesmo destino da mãe. A vontade de se vingar pela sua perda surge quando descobre que Vicente tivera relações sexuais com a sua filha pouco antes dela sofrer um novo bloqueio psicológico-emocional, portanto ele seria o culpado - embora, a bem da verdade, não tivesse sido culpa dele. Então, para se vingar, Ledgard tem a bizarra ideia de fazer uma redesignação de gênero e, não satisfeito, após o procedimento ele decide transformar Vicente em sua cobaia humana de experimentos, com a qual trabalhará para criar a pele perfeita, resistente aos maiores males, com a qual a sua mulher poderia ter sido salva e também a sua filha.

Cena de "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)
 
Obviamente ele foi longe demais em seu intento e, tal qual Pigmalião, que via tantos defeitos nas mulheres até que criou Galatea, uma escultura tão perfeita que se apaixonou por ela, Ledgard faz de sua pele "Gal" uma criatura tão perfeita e resistente que acaba deslumbrado e fascinado com a própria obra - porém, tal qual a criatura do Dr. Frankenstein, também Gal pode não ficar muito satisfeita ao perceber no que foi transformado. Neste ínterim, na minha opinião o final não poderia ser de outra forma.

Por fim (!), A Pele Que Habito certamente ainda renderia muitas outras discussões que não fossem centradas na vingança e obsessão de Ledgard ou na infelicidade de Vicente nem o destino de Vera ou ainda as questões relacionadas aos experimentos científicos em humanos. Porém é preciso que seja assistido abertamente, que se deixe ser penetrado pela obra, que se permita absorvê-la. Além disso, o filme não só tem um roteiro fascinante e uma ótima direção como também um elenco fantástico, como aliás costuma ser nas obras de Almodóvar. Mais especificamente falando de Elena Anaya, seu desempenho foi excelente tendo em mãos uma personagem nada fácil de ser interpretada, e Marisa Paredes, a qual também deu vida a uma excelente e dedicada Marilia. 5/5

Cena de "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Halloween : A Noite do Terror

Nem vou me estender em relação ao atraso da postagem nem quanto à temática do filme, mas, aproveitando uma folguinha que tive recentemente, compartilho o último filme que vi, que foi também uma remissão dos meus muitos pecados cinematográficos: Halloween (1978), clássico de John Carpenter e o primeiro papel de Jamie Lee Curtis no cinema.


A história é muito conhecida até mesmo por aqueles que nunca viram o filme (como eu até então não tinha visto): Michael Myers, com seis anos de idade, assassina brutalmente a sua irmã mais velha na noite de Halloween de 1963, na cidade fictícia de Haddonfield. Passa a infância e adolescência num sanatório, mas, 15 anos depois, numa mesma noite de Halloween, consegue escapar e foge justamente para sua cidade natal, para fazer novas vítimas - e encontrar aquela que se tornaria o seu principal alvo: Laurie Strode (Jamie Lee) - e para onde corre também o seu médico, única pessoa que sabe de fato do que o Myers é capaz.




E essa é, basicamente, a história do filme. Tudo muito simples, incluindo o seu orçamento (diz-se, até, que os atores iam filmar com as roupas de casa, para economizar com o figurino). No entanto, rendeu milhões de dólares nas bilheterias e tornou Michael Myers o mais célebre assassino em série do Cinema; logo depois, surfando na onda do sucesso, vieram as continuações (as quais eu ainda não assisti), que trazem maiores detalhes sobre os principais personagens, além, é claro, de um remake, que trilham mais caminhos de sangue para Myers.


É curioso assistir a esse filme hoje em dia, depois de já ter assistido a vários outros que beberam escancaradamente dessa mesma fonte - assassino-em-série-mascarado-que-mata-jovens-com-arma-específica-e-vítima-preferida -, como os mais recentes "Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado","Pânico", "Sexta-Feira 13", "O Massacre da Serra Elétrica" e por aí vai... Está tudo aí: o subúrbio tipicamente americano, com suas casinhas lindas, um belo jardim, crianças que brincam de bicicleta, e, claro, os adolescentes que correm perigo sem saber - dentre eles não pode faltar a virgem, a preferida desde sempre dos assassinos mascarados seja com uma faca, com uma serra... - mas, também, tudo com mais climão de suspense do que banho de sangue o tempo todo e sexo que compõem mais de 50% dos filmes de hoje em dia com essa temática.




Com uma trilha sonora que constrói e mantém um clima tenso de suspense ao longo da história, o excelente uso da câmara subjetiva no começo do filme, fazendo do ângulo do pequeno Myers o principal, o clássico do terror "slash", como ficou conhecido o gênero, após mais de 30 anos ainda mantém as deliciosas referências ao estilo do Mestre do Suspense de todos os tempos, Alfred Hitchcock - seja no fato de a protagonista , Jamie Lee Curtis, ser a filha de Janet Leigh (a atriz que protagonizou a antológica cena do chuveiro em "Psicose") ou, principalmente, pela constante posição de voyeur em que se encontra o espectador durante todo o filme - marca registrada de muitos filmes de Hitchcock - e não só o espectador: dentro do próprio filme sempre tem alguém vigiando, bisbilhotando, espreitando... além, ainda, do suspense tão bem construído, que mantém o espectador num clima bem inconfortável, posto que nunca se sabe o que vai acontecer (é, apesar de já sabermos boa parte da história, nem tudo é tão previsível assim nas sequências do filme). E tudo bem que o filme não é exatamente de dar aquele medo, mas olha, eu não pude evitar olhar por cima do ombro quando fui pegar um copo d'água na cozinha.