Um semestre inteiro, mais precisamente. Foi o meu sexto, no qual o TCC bate à porta. Fui poucas vezes ao cinema e vi poucos filmes que tenham me interessado o suficiente para abusar do apertado tempo que tinha e escrever. Agora estou de férias, com a pulga da dúvida sobre o tema que escolhi para o TCC, mas vou relaxar um pouco em relação a isso ou senão vou pirar.
Esse post é na verdade muito pessoal. O título remete ao filme As Horas (The Hours, 2002) e é sobre ele mesmo que pretendo discorrer, mas analisando-o principalmente em relação ao meu momento atual, em virtude de alguns acontecimentos recentes. Esse filme significa muito pra mim, hoje mais do que nunca, e é muito importante que eu bote pra fora algumas impressões e sensações.
Pouco antes das férias, completei 22 anos (already!). Não tem aquele "peso" de chegar à década dos 20, nem a pretensão da maioridade absoluta dos 21, mas ainda assim é mais um passo em direção aos 30, e sabe como é, I'm not getting any younger. Um fato ocorrido nesse dia, no entanto, me causou uma introspecção que me levou a uma nostalgia e a uma consequente melancolia de apenas alguns anos atrás, aos meus 18, de como eu achava que as coisas seriam, e de como elas acabaram acontecendo - algumas delas exatamente no meu 22º aniversário.
A sensação crescente é de que estou mais velha do que os meus 22 anos poderiam dizer. Não sinto que partilho dos mesmos desejos da minha faixa etária; tendo a achar tudo muito trivial e insípido, raso demais. É como se eu já tivesse vivido algumas das melhores fases da vida, realmente experimentado tudo de que já podia, e agora é o momento em que enfrento a desilusão dos sonhos da adolescência; em que vejo que tudo o que eu achava que duraria pra sempre está caindo por terra; em que vejo anos de convivência e cumplicidade se transformarem em relações tão tênues e frágeis que se desfazem com facilidade, em apenas uma noite.
E bem... cada um tem uma maneira de lidar com suas angústias, eu acho. A minha é através da arte de pessoas que superaram as suas de alguma forma e criaram obras que inspiram a nós, pobre mortais. A obra de arte nesse caso é o filme As Horas, de Stephen Daldry, adaptação do livro homônimo de Michael Cunninghan, prêmio Pulitzer de 1999. Assisti a esse filme várias vezes, em épocas diferentes, mas ele nunca significou tanto pra mim como nesse exato momento. Pretendo ler o livro nessas férias, para que minha experiência seja completa.
Em The Hours, três histórias ocorrem paralelamente. Cada uma delas sobre uma mulher de sua época. Em 1923, Richmond, Inglaterra, Virginia Woolf (na melhor interpretação da vida de Nicole Kidman, não a toa vencedora do Oscar) escreve sua obra "Mrs. Dolloway": um dia ordinário na vida de uma mulher, "e nesse dia toda a sua vida". Em sua vida pessoal, Virginia está infeliz na cidade em que vive com o marido Leonard, e anseia por voltar à vida de Londres, de onde o marido a levou embora por causa de sua depressão e tentativas de suicídio.
Na década de 50, em Los Angeles, vive Laura Brown, interpretada por Julianne Moore. Laura é uma típica dona de casa, esposa de um homem honesto e muito atencioso a ela e ao pequeno filho, Richard. Grávida de seu segundo filho, Laura está lendo o romance Mrs. Dalloway, e como ela, Laura pensa em preparar uma pequena festa para o aniversário do marido. Mas no mesmo dia, ela percebe o quanto é infeliz e prepara um plano para se matar.
Nos anos 2000, na cidade de Nova York, Clarissa Vaughan, a personagem de Meryl Streep, é uma editora de livros. Neste dia, ela também dará uma festa para o seu grande amigo Richard, vencedor de um importante prêmio de Literatura pelo livro que escreveu. Ex-amante de Clarissa, Richard agora sofre de AIDS, está bastante debilitado e praticamente só recebe visitas de Clarissa, a quem ele carinhosamente chama de Mrs. Dalloway (Clarissa é também o nome da senhora Dalloway).
As três histórias das mulheres ocorrem paralelamente no filme, e a vida das três está de alguma forma relacionada a de Mrs. Dalloway. As três em algum momento se veem nesta senhora fictícia, e através dela enxergam o vazio e a trivialidade de suas vidas, das festas "a cobrir o silêncio", dos anos, do amor, das horas. É o processo de escrita do romance, por Virginia Woolf, que conta as histórias dessas mulheres.
Virginia estava desesperada por escapar. Aquela pequena cidade a estava matando com todo aquele silêncio e quietude, embora soubesse que o marido a tinha trazido para lá devido a recomendações médicas, para o bem da sua saúde mental. No entanto, não dera certo. Ela conseguiu, tendo a sua própria vida como inspiração, resolver o destino de Mrs. Dalloway, mas ao que parecia, o seu era apenas um e, sendo assim, ela se encaminhou para o lago, encheu o bolso do vestido de pedras e entrou na água. Nem Leonard nem os médicos, nem Richmond puderam impedir.
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| "You think I may one day escape?" |
Laura, conforme o marido contara para o filho, era o tipo de garota solitária, que comia sozinha à mesa na faculdade. Ele não conseguira esquecê-la, e queria se casar com ela, comprar uma casa para ela, e ter com ela uma vida bem parecida com aquela que eles tinham. No dia do aniversário dele, Laura e seu pequeno filho preparam um bolo surpresa e uma pequena festa para ele. Esse era o seu papel como esposa, como mãe, preparar um bolo para o aniversário do marido. Laura sabia que ele merecia, era um marido dedicado e um pai atencioso. Tinha uma vida que muitos poderiam considerar feliz. Sua amiga, que vem visitá-la nesta mesma tarde, descobre que tem um tumor no útero e que pode não ter filhos. Diz a Laura que ela é sortuda, pois uma mulher não poderia se considerar completa até ser mãe. Mas aquela vida não fazia de Laura uma mulher completa e feliz.
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| "She's a hostess, and she's incredibly confident and she's going to give a party. And maybe because she's confident, everyone thinks she's fine...but she isn't." |
Clarissa vive com Sally há dez anos, mas Richard a acusa de não cuidar tanto dela mesma, da vida dela, como cuida dele. Ele chega a conclusão de que está vivo não por ele, mas por Clarissa, para agradá-la, mas que é chegada a hora de ela deixá-lo ir.
"- Would you be angry...
- Would I be angry if you didn't show up at the party?
- Would you be angry if I died?"
Neste dia, em que ela está preparando uma festa para ele, Clarissa sente que algo está errado, aquele dia que começara com uma manhã tão bonita está errado, não era pra ser assim, ela não deveria estar se sentindo daquele jeito. Nesse dia eles relembram a primeira vez em que estiveram juntos, o beijo que Clarissa deu em Richard na praia. Ali, naquele quarto sujo e com cheiro de doença (sim, a cena é tão maravilhosa a esse ponto) eles relembram uma lembrança de tantos anos atrás, de algo acontecido e perdido entre os anos. Nesse mesmo dia, Clarissa recebe a visita de um ex-amante de Richard. Ao vê-lo, após tantos anos, aumenta a sensação de algo está errado com aquele dia, com aquela festa, com a presença daquela pessoa ali em pé na sua cozinha, a lembrança do seu passado, do passado de Richard, de uma época que não dialogava com aquela.
"- I think you're courageous.
- Courageous? Why?
- To dare go visit... What I mean is, to face the fact that we have lost those feelings forever."
Ao voltar para o apartamento de Richard, uma das cenas mais maravilhosas do filme, Clarissa já sabe imediatamente o que a espera: ele havia misturado os remédios, e afastara as cortinas da janela, e se encaminhava para a janela. Mesmo que ela tentasse evitar, e ela tentou, ela sabia que não poderia impedir.
Num filme em que Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep reinam absolutas em papéis fortes e marcantes, Ed Harris destaca-se com uma atuação contundente, com um personagem difícil apesar de sua aparência fraca e debilitada. A última cena dele é, para mim, a melhor de todo o filme, com o melhor diálogo, justamente por ser este o mais simples de todos.
"- I was nineteen years old...and I'd never seen anything so beautiful. You, coming out of the glass-door in the early morning still sleepy. Isn't it strange? The most ordinary morning in anybody's life. I'm afraid I can't make it to the party, Clarissa.
- The party...doesn't matter...
- You've been good to me, Mrs. Dalloway. I love you. I don't think two people could've been happier than we've been."
Laura Brown é contatada por Clarissa após a morte de Richard. Ela é a mãe dele. É quando sabemos o que aconteceu a ela, após ter desistido do plano de suicídio. Ela admite para Clarissa que escolhera a vida e que por isso, após o nascimento do seu segundo filho, abandonara a família e se tornara empregada numa biblioteca no Canadá. A fala de Laura é maravilhosa: "seria maravilhoso dizer que me arrependi. Seria fácil... Mas o que isso significaria? O que significa arrepender-se quando você não tem escolha? É o que você consegue suportar. Então, é isso... ninguém irá me perdoar. Era a morte. Eu escolhi a vida".
Então, é isso... Esse post é mais na verdade sobre o quanto esse filme significa pra mim. A vida tão comum de pessoas comuns, e que por isso mesmo é facilmente relacionável a de qualquer um no mundo. E em relação a elas, as angústias da existência, a escolha que fazemos por causa delas. Será que somos felizes? Será que temos a obrigação de ser felizes? O que é ser feliz? Eu posso imaginar um momento em que fui muito feliz, e esse momento não é nada parecido com o que eu imagino que possa vir a ser a felicidade no futuro. E esses momentos, para outra pessoa, podem até mesmo não significar nada. Viver não é nada fácil, mas por outro lado a vida está cheia de possibilidades.
"Dear Leonard,
To look life in the face, always... to look life in the face... and to know it... for what it is... at last to know it... to love it... for what it is... and then... to put it away. Leonard... always the years between us, always the years... always the love... always the hours..."




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