terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sr. Ninguém e das escolhas da vida

Numa noite dessas entre amigos, em que everything goes e falamos sobre coisas várias, eis que, ao som de 30 Seconds to Mars, eu e uma amiga enveredamos por uma conversa sobre o clipe Hurricane e suas mil e umas referências, daí passando mais especificamente a falar sobre Jared Leto e sua carreira cinematográfica. Eu falei muitíssimo sobre Requiém para um Sonho (2001), que era o trabalho mais significativo do Jared que eu já tinha visto até então, e para minha surpresa ela falou muito mais sobre um filme que eu nunca tinha ouvido falar antes: Mr. Nobody (2009).

Cartaz do filme "Sr. Ninguém" (Filmow)


Fiquei então com muita vontade de assistir ao filme - seja pelo tanto que minha amiga falou dele, seja por causa do Jared (sou um pouco groupie cinematográfica :x), seja pelo tema do filme abordar o que mais tem para ser abordado e que nunca vai me cansar: a vida. Mais especificamente, as escolhas da vida.


Nemo Nobody tem 118 anos e é o último mortal num mundo em que os seres humanos tornaram-se imortais. Mas nada se sabe ao certo sobre ele, sobre seu passado, sobre como ele viveu sabendo que um dia morreria.
Nemo Nobody tem a esperança de reencontrar seu amor de infância, Anna.
O casamento de Nemo e Elise está passando por uma crise, assim como o casamento de Nemo e Gene.
Nemo Nobody tem 15 anos e está apaixonado por Anna, que é a filha do seu padrasto.
Nemo tem 15 anos, cuida do pai e se apaixonou por Elise, que na verdade ama outro, então ele resolve dar uma chance para Gene.
Nemo Nobody é um menino de 9 anos cujos pais se separaram, e agora ele está numa estação de trem e não sabe se vai morar com a mãe ou com o pai.




Qual destas vidas é a "certa"? Qual destas foi de fato a vida que Nemo viveu? Na verdade, o filme segue por todas estas vidas, contando o seu desenrolar sem seguir uma sequência cronológica. Cada rumo da vida de Nemo depende de uma decisão, de uma escolha sua. Cada escolha vai seguir por um caminho diferente.
Praticamente tudo na nossa vida envolve uma decisão. Desde as coisas mais simples, como escolher o sabor de um sorvete ou entre morar com a mãe ou com o pai. Muitas dessas escolhas tornam-se muito difíceis de serem tomadas, justamente por não sabermos as implicações no futuro. Muitas vezes desejamos que o nosso futuro se mostrasse, para que fôssemos capazes de fazer a melhor escolha.

Cena de "Sr. Ninguém" (2009)


Na filosofia grega existia a ideia do Lethe, um rio do Hades no qual, ao nele "beber", a alma se esqueceria de todas as suas vidas passadas. Em Sr. Ninguém tem-se uma ideia muito semelhante, de acordo com a qual todos nós já sabemos de toda nossa vida futura antes mesmo de nascer, e quando é chegada nossa vez anjos pousam os dedos em nossos lábios e nós mergulhamos numa mesma espécie de rio, esquecendo assim de tudo o que anteriormente sabíamos ao nascer. Assim, tem início a nossa vida de fato e, com ela, todos os processos de fazer escolhas e tomar decisões e a primeira delas é escolher os nossos pais - o que, particularmente, eu adorei! Afinal, por que não seria possível um vínculo com a nossa futura família antes mesmo do nascimento?!


Um incidente acontece com Nemo, porém: os anjos se esquecem de "marcá-lo" e assim ele nasce já sabendo o que vai acontecer em sua vida. E é aí que está: por saber os vários caminhos que a sua vida pode seguir, a depender da escolha que fizer, ele é incapaz de decidir. Não adianta nos iludir, portanto: ainda que a gente soubesse o que cada escolha acarretaria em nossa vida, não seria mais fácil escolher. Seria ainda mais difícil, eu acredito.


É possível ver vários momentos de nossa vida durante as "várias vidas" de Nemo que vemos durante o filme. Esse é um dos motivos pelos quais ele se tornou tão especial pra mim. Afinal, quantas e quantas vezes já nos perguntamos: "não teria sido melhor se eu tivesse feito aquilo ao invés disso?", "e se eu tivesse viajado com fulano aquele dia ao invés de ter ficado e ido ao show?" O que teria me acontecido? Sempre pensando no que poderíamos ganhar de bom nestas situações, mas também não seria possível que eu sofresse um acidente durante a viagem? E o que fica diante disso tudo, já que, ok, escolhas geralmente não são fáceis e  pensamos muito antes de fazê-las, ponderando que não podemos ter tudo ao mesmo tempo e que, como já cantava Charlie Brown, "cada escolha, uma renúncia"? Qual das vidas vividas por Nemo é a certa? Qual deveria ter sido a melhor escolha para ele?



Feliz ou infelizmente só podemos viver uma vida, sem direito a olhar pra frente nem para trás. Praticamente tudo nela envolve uma escolha, até mesmo uma não-escolha é uma escolha. E, uma vez que a escolha não é feita, tudo permanece possível... Daí que 'tudo na nossa vida poderia ter sido de um jeito diferente e ainda assim teria o mesmo significado'. 'Cada caminho é um caminho certo'.


P.S.: Jared Leto conseguiu me impressionar ainda mais do que havia feito em Requiém para um Sonho!
P.S.2. Além de tudo isso, a fotografia e a trilha sonora fazem o filme ser ainda mais maravilhoso!




quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nos Cinemas: A Pele Que Habito

Até muito recentemente ainda não tinha tido a oportunidade de assistir a um filme de Almodóvar - eu sei, ainda tenho muitos pecados cinematográficos a pagar! - até quando me vi um dia cara a cara com "Má Educação" (2004) na locadora. Eu fiquei fascinada com a engenhosidade e criatividade daquele roteiro, que explorava o melhor do homem que pode se transformar em seu pior, como a paixão por alguém ou por algo que se faz, que pode levar a atitudes intensas e extremas. 
 
Apesar de as situações acontecerem de tal maneira independente do que possa causar no espectador - como confusão ou estranhamento - a força do roteiro o mantém interessado nessa que é uma história que eu nunca vi parecida em nenhum outro filme, ainda que outras obras já tivessem explorado, por exemplo, o uso da metalinguagem. A mesma narrativa é contada mais de uma vez dentro do filme e é impressionante como ainda "rende" e se desdobra em uma nova e surpreendente descoberta. Um trabalho admirável cujo sucesso se deve também à melhor atuação que eu já vi do Gael García Bernal - e eu que achava que ele tinha dado o seu melhor em Ensaio Sobre a Cegueira (2008).
 
Cena do filme "Má Educação" (AdoroCinema)
 
Agora, tive uma nova oportunidade de ver uma obra mais atual de Almodóvar nos cinemas, "A Pele que Habito" (2011). Incluí na lista dos filmes que gostaria de ver no cinema esse mês, mas a vontade de ver se intensificou quando passei a ver os comentários de quem já tinha assistido. De "intrigante, obscuro, novo Almodóvar" a "nojento, sem profundidade". Como minha bagagem almodoveriana é muito pequena, não poderia dizer com propriedade as diferenças existentes entre as obras anteriores do cineasta para esta, porém alguns aspectos me remeteram a Má Educação e deu pra identificar o Almodóvar por detrás daquela tela.

Vou tentar exercer a difícil tarefa de falar dos filmes sem soltar muitos spoilers, porém se alguém que por acaso estiver lendo ainda não tiver visto nenhum dos dois, é melhor que pare por aqui e vá direto pra locadora ou pro cinema mais próximos!

Por mais que eu tivesse lido a sinopse do filme várias vezes antes de assisti-lo, durante a primeira parte do filme confesso que fiquei confusa, sem saber direito qual era a trama. Acontece que, como evidenciado em Má Educação, em A Pele que Habito não há uma história apenas a ser contada durante toda a projeção, como é o tradicional das narrativas cinematográficas (em especial as hollywoodianas), mas sim diversos pontos de vistas, de histórias de vida dos personagens, que são guiados por suas paixões, por seus desejos, por seus erros e por suas obsessões. São essas histórias, contadas numa sequência não necessariamente cronológica dos fatos que vão construindo, "moldando" o filme e que podem causar confusão no espectador - embora mantendo-o preso, atado, a ele; confuso porém instigado, e convenhamos que não é todo filme que consegue casar esta união tão tênue. Em ambos os filmes o ritmo não é exatamente de deixar o espectador "sem fôlego", sem conseguir piscar nem nada do tipo. Pelo contrário, Almodóvar não tem pressa alguma em tecer a sua narrativa (inclusive, outros tipos de comentários que vi sobre A Pele que Habito eram reclamações por causa de seu ritmo lento). Logo de início, em ambos os filmes citados do diretor, nossa confusão em entender para onde estamos sendo levados sugere que há algo a ser mais profundamente abordado, e que isso não se dará da forma mais confortável para o espectador, o qual já está acostumado a um estilo que "entrega o jogo"  sem lhe causar maiores "transtornos".
 
Cena do filme "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)
 
Em Má Educação era um jovem ator que, em busca de melhores oportunidades, procura um diretor de cinema que no passado fora seu colega de escola e também seu primeiro amor. Em A Pele que Habito, trata-se de um cirurgião que perde tragicamente a esposa e que devido a esse acidente se dedica inteiramente a um estudo sobre enxertos de pele e, mais especificamente, sobre um tipo de pele resistente a queimaduras e outros tipos de males aos quais a pele humana está suscetível e que poderia tê-la salvado. Em ambos, para obter êxito em seus intentos os personagens se  envolvem em níveis cada vez mais complexos com os demais, buscando extrair deles o que lhes convêm; guardadas as devidas proporções dos dois filmes, sentimentos de vingança, paixão, obsessão e loucura coexistem, intensificando os laços que os unem e que  também podem destruí-los.

Como citei anteriormente, as sinopses parecem simples; tem-se muitas impressões sobre os caminhos para os quais poderemos ser levados, mas raramente chegamos onde pensamos que chegaríamos. Na sala onde assisti À Pele que Habito, por exemplo, conforme novas descobertas eram reveladas ao público, não foram poucas as expressões de espanto (inclusive minhas próprias), o remexer nas poltronas, a incredulidade e os "não é possível". Acontece que no Cinema é possível, sim, e apesar da pouca profundidade que possuo a respeito dos trabalhos anteriores do diretor espanhol, principalmente depois de ter assistido À Pele Que Habito, sinto que não há nada impossível em seus excelentes roteiros.
 
Cena do filme "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)
 
Conforme ia descobrindo mais sobre o misterioso cirurgião Robert Ledgard (que atuação foi essa do Banderas??!!), lembrei do também misterioso Ignacio Rodriguez (ou Ángel/Juan/Zahara) de Má Educação, ambos personagens apaixonados, vingativos e determinadamente egoístas a atingir um objetivo até que este se torna o ponto principal de suas vidas, uma obsessão da qual nem mesmo eles se dão conta, seja pela vontade de se tornar um grande ator de cinema e ainda ter o amor que fora do seu irmão para si, seja pela vontade de unir medicina e paixão e buscar, dia após dia, por uma solução perfeita que poderia ter salvado alguém de quem se gosta muito - ou "recriar" este alguém.
 
Além dos aspectos da personalidade humana e dos extremos (e paradoxalmente tão próximos) amor-ódio presentes e tão perturbadoramente explorados, tanto em Má Educação quanto em A Pele que Habito questões delicadas, como pedofilia e experimentos em humanos, permeiam a vida dos personagens sem serem exatamente expostas com o objetivo de discussão; não são oferecidas saídas nem respostas. É oferecido um tipo diferente de cinema, que desafia o seu espectador, que não tem a pretensão de agradá-lo nem diverti-lo.
 
Os personagens de Almodóvar são tão complexos quanto é possível para um humano. Tudo ia bem para o Dr. Ledgard até a esposa sofrer um acidente e suicidar-se, a filha ser testumunha e ficar para sempre traumatizada até que termina por ter o mesmo destino da mãe. A vontade de se vingar pela sua perda surge quando descobre que Vicente tivera relações sexuais com a sua filha pouco antes dela sofrer um novo bloqueio psicológico-emocional, portanto ele seria o culpado - embora, a bem da verdade, não tivesse sido culpa dele. Então, para se vingar, Ledgard tem a bizarra ideia de fazer uma redesignação de gênero e, não satisfeito, após o procedimento ele decide transformar Vicente em sua cobaia humana de experimentos, com a qual trabalhará para criar a pele perfeita, resistente aos maiores males, com a qual a sua mulher poderia ter sido salva e também a sua filha.

Cena de "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)
 
Obviamente ele foi longe demais em seu intento e, tal qual Pigmalião, que via tantos defeitos nas mulheres até que criou Galatea, uma escultura tão perfeita que se apaixonou por ela, Ledgard faz de sua pele "Gal" uma criatura tão perfeita e resistente que acaba deslumbrado e fascinado com a própria obra - porém, tal qual a criatura do Dr. Frankenstein, também Gal pode não ficar muito satisfeita ao perceber no que foi transformado. Neste ínterim, na minha opinião o final não poderia ser de outra forma.

Por fim (!), A Pele Que Habito certamente ainda renderia muitas outras discussões que não fossem centradas na vingança e obsessão de Ledgard ou na infelicidade de Vicente nem o destino de Vera ou ainda as questões relacionadas aos experimentos científicos em humanos. Porém é preciso que seja assistido abertamente, que se deixe ser penetrado pela obra, que se permita absorvê-la. Além disso, o filme não só tem um roteiro fascinante e uma ótima direção como também um elenco fantástico, como aliás costuma ser nas obras de Almodóvar. Mais especificamente falando de Elena Anaya, seu desempenho foi excelente tendo em mãos uma personagem nada fácil de ser interpretada, e Marisa Paredes, a qual também deu vida a uma excelente e dedicada Marilia. 5/5

Cena de "A Pele Que Habito" (AdoroCinema)



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Halloween : A Noite do Terror

Nem vou me estender em relação ao atraso da postagem nem quanto à temática do filme, mas, aproveitando uma folguinha que tive recentemente, compartilho o último filme que vi, que foi também uma remissão dos meus muitos pecados cinematográficos: Halloween (1978), clássico de John Carpenter e o primeiro papel de Jamie Lee Curtis no cinema.


A história é muito conhecida até mesmo por aqueles que nunca viram o filme (como eu até então não tinha visto): Michael Myers, com seis anos de idade, assassina brutalmente a sua irmã mais velha na noite de Halloween de 1963, na cidade fictícia de Haddonfield. Passa a infância e adolescência num sanatório, mas, 15 anos depois, numa mesma noite de Halloween, consegue escapar e foge justamente para sua cidade natal, para fazer novas vítimas - e encontrar aquela que se tornaria o seu principal alvo: Laurie Strode (Jamie Lee) - e para onde corre também o seu médico, única pessoa que sabe de fato do que o Myers é capaz.




E essa é, basicamente, a história do filme. Tudo muito simples, incluindo o seu orçamento (diz-se, até, que os atores iam filmar com as roupas de casa, para economizar com o figurino). No entanto, rendeu milhões de dólares nas bilheterias e tornou Michael Myers o mais célebre assassino em série do Cinema; logo depois, surfando na onda do sucesso, vieram as continuações (as quais eu ainda não assisti), que trazem maiores detalhes sobre os principais personagens, além, é claro, de um remake, que trilham mais caminhos de sangue para Myers.


É curioso assistir a esse filme hoje em dia, depois de já ter assistido a vários outros que beberam escancaradamente dessa mesma fonte - assassino-em-série-mascarado-que-mata-jovens-com-arma-específica-e-vítima-preferida -, como os mais recentes "Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado","Pânico", "Sexta-Feira 13", "O Massacre da Serra Elétrica" e por aí vai... Está tudo aí: o subúrbio tipicamente americano, com suas casinhas lindas, um belo jardim, crianças que brincam de bicicleta, e, claro, os adolescentes que correm perigo sem saber - dentre eles não pode faltar a virgem, a preferida desde sempre dos assassinos mascarados seja com uma faca, com uma serra... - mas, também, tudo com mais climão de suspense do que banho de sangue o tempo todo e sexo que compõem mais de 50% dos filmes de hoje em dia com essa temática.




Com uma trilha sonora que constrói e mantém um clima tenso de suspense ao longo da história, o excelente uso da câmara subjetiva no começo do filme, fazendo do ângulo do pequeno Myers o principal, o clássico do terror "slash", como ficou conhecido o gênero, após mais de 30 anos ainda mantém as deliciosas referências ao estilo do Mestre do Suspense de todos os tempos, Alfred Hitchcock - seja no fato de a protagonista , Jamie Lee Curtis, ser a filha de Janet Leigh (a atriz que protagonizou a antológica cena do chuveiro em "Psicose") ou, principalmente, pela constante posição de voyeur em que se encontra o espectador durante todo o filme - marca registrada de muitos filmes de Hitchcock - e não só o espectador: dentro do próprio filme sempre tem alguém vigiando, bisbilhotando, espreitando... além, ainda, do suspense tão bem construído, que mantém o espectador num clima bem inconfortável, posto que nunca se sabe o que vai acontecer (é, apesar de já sabermos boa parte da história, nem tudo é tão previsível assim nas sequências do filme). E tudo bem que o filme não é exatamente de dar aquele medo, mas olha, eu não pude evitar olhar por cima do ombro quando fui pegar um copo d'água na cozinha.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Nos cinemas: Capitães da Areia

Créditos a : AdoroCinema

Sim, o "Que Filme Vi Hoje?" ainda ta de pé! E vai continuar, no que depender de mim. Se tem uma coisa sobre a qual gosto muito de conversar e, mais do que isso, dissecar mesmo o assunto a ponto de não sobrar mais nada a respeito pra falar e, ainda assim, continuar falando o que já foi dito, é sobre filmes. Porém tempo, tanto pra mim quanto para um interlocutor, ainda mais pra falar sobre filmes horas a fio tá cada vez mais difícil, portanto recorri a este blog - espaço no qual eu poderia falar, sem compromisso, sobre filmes que me interessam de alguma forma que seja, e no qual pessoas que possuem o mesmo interesse poderiam também tomar parte. E, justamente para cobrir essa questão do tempo e também para tornar o blog mais dinâmico, pensei numa parceria e falei com minha colega de faculdade, que topou fazer o blog comigo. No entanto, Ana Paula está com um problema pessoal "daqueles" e ainda não teve tempo para fazer a sua colaboração por aqui. E quanto a mim, lembram da questão da falta de tempo que mencionei, né? Mas farei o possível com o mínimo de tempo que tiver para não ficar tanto tempo sem alimentar o blog.

Bem, dito isto, vamos ao post de hoje: finalmente está nos cinemas a tão aguardada adaptação da obra homônima de Jorge Amado, cujos roteiro e direção são assinados pela neta, Cecília. A homenagem é para Jorge, mas também é um presente para todos aqueles que um dia se emocionaram e foram marcados de alguma forma pelo livro - e, quem sabe, um convite aos que ainda não tiveram essa maravilhosa experiência, de procurarem o livro após terem visto o filme.

Na Salvador dos anos 1930, um grupo de meninos (a maioria abandonados ou órfãos) vive em um trapiche abandonado e, sob a liderança de Pedro "Bala" - de quinze anos de idade -  praticam furtos, entre outros pequenos crimes, nas regiões de classe alta da cidade, para garantir a comida e a sobrevivência deles, em suma. Enquanto praticam os furtos, não são vistos como crianças ("parece criança, mas não é; são todos bandidos", diz um policial no filme), mas como deliquentes - para os quais a polícia está atrás apenas de uma pequena "desculpa" para colocar no reformatório. Inclusive, no livro, anterior às três partes nas quais a história é dividida, segue-se um prefácio, no qual notas de jornal (fictício) apresentam os "capitães da areia" principalmente como bandidos.

Quando se encontram no trapiche, no entanto, "Professor" (o que sabe ler) lê histórias para os colegas, despertando neles a oportunidade de sonhar com uma vida diferente, com um futuro melhor: "Volta Seca", por exemplo, (nem todos têm seu nome "verdadeiro" revelado na obra, talvez porque os que foram abandonados, por exemplo, realmente não o tivessem), afilhado de Lampião, revolta-se com as autoridades e sonha em ser cangaceiro; "Professor" (cujo nome é João José), além de saber ler, tem grande talento e vocação para pintura; "Sem-Pernas", um garoto coxo, que às vezes aplica golpes junto aos demais capitães da areia em casas de família rica como um garoto órfão para depois roubá-los - é talvez o que mais sinta falta de uma família, justamente por ser acolhido e experimentar por períodos tão breves como é de fato ser uma criança amada; Pirulito, que tem uma grande fé religiosa - talvez onde deposite a esperança de um futuro melhor; o próprio Pedro "Bala", cujo pai era líder de greves, e que segue o mesmo destino do pai. Ou, quando aprendem capoeira com o Querido-de-Deus, amigo e também protetor dos meninos, ou, principalmente, quando um carrossel chega à cidade, eles esquecem por um momento que são os capitães da areia, que um ao outro é tudo o que eles têm, e se permitem experimentar ser as crianças que de fato são.
Crédito da foto: AdoroCinema
                                 
E é então que, principalmente para nós que tanto gostamos de ter uma "opinião formada sobre tudo", um julgamento pronto e preparado sobre os tantos problemas a respeito de nossa sociedade, a obra de Jorge Amado mostra que nada é tão simples assim: bandido ou vítima, deliquente ou criança, culpado ou inocente etc. Afinal de contas o ser humano não é unidimensional; é muito mais complexo do que um simples julgamento baseado em determinada ação poderia determinar. Um amigo que viu o filme comigo comentou que, quando os meninos praticavam os roubos, torcia para que eles não fossem pegos, apesar de "a sua consciência" dizer que roubar não é certo e que eles precisavam de algum tipo de coerção.

Claro, não defendo que roubar seria a solução (nem que Jorge Amado defendia isso), obviamente me senti lesada e impotente quando fui assaltada, por exemplo, mas como afirmar que o ladrão nasceu ladrão e que o remédio é morrer apanhando? Pois, quando Pedro Bala é enviado para o reformatório, por exemplo, qual que é o método empregado para "corrigir" o garoto? Longos períodos sem comida e sem água, em cativeiro na cafua, misturado com suas fezes e urina, porrada. Isso, sim, iria fazer com que ele, um garoto de 15 anos, parasse de roubar. Olhando para os dias de hoje, estamos longe de dizer que já passamos desses dias. Então, como vemos, a questão está muito longe de ser uma equação simples (roubou = porrada). 

Enfim, apenas alguns dos muitos questionamentos e reflexão que a leitura de Jorge Amado propicia - e isso tendo em consideração que o livro foi publicado pela primeira vez em 1937, apesar de proibido pela censura, e o filme, lançado em 2011 - além do emocional que envolve o leitor - questão que faltou um pouco no filme. Os atores escolhidos para dar vida aos capitães da areia dividem opiniões, principalmente para os que já eram familiarizados com a obra. Eu, particularmente, não gostei dos diálogos "texto decorado", claramente perceptível nas cenas, fruto do amadorismo dos jovens atores, mas não desaprovo o elenco formado - a exceção seria o intérprete de "Sem-Pernas", que na minha leitura era de longe o personagem que mais me emocionava com a sua tristeza e carência, e que no filme foi o que menos teve profundidade. Mas gostei da postura de líder do Pedro Bala na tela grande, do olhar expressivo do Professor, que de fato era um professor para os meninos, do jeitão malandro do "Gato", da aparente despreocupação diante da vida do "Boa Vida", enfim; e o que falar de Dora, ou melhor, da intérprete de Dora (a atriz Ana Graciela Conceição da Silva): foi a que, verdadeiramente, soube captar toda a doçura e determinação da sua personagem, única figura feminina no meio de tantos garotos. Sua presença é marcante no filme e sem dúvidas é a atuação que mais se destaca. Porém, nem mesmo Dora, nem sua relação com os capitães da areia (em especial, com Pedro Bala) teve a profundidade que merecia. 
Crédito da foto: AdoroCinema
                                                                 
Mas a essência da obra, essa foi preservada, essa se encontra nas telas e é sentida por todos - posto que a história, e toda a reflexão que ela traz, continua mais atual do que nunca - moldada por uma fotografia arrebatadora de tão intensa e embalada por uma trilha sonora composta por Carlinhos Brown que é a cara da Bahia - como Jorge Amado.




Título: Capitães da Areia 
Gênero: Drama
Direção: Cecília Amado e Guy Gonçalves
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda
Elenco: Jean Luis Souza de Amorim, Romário Santos de Assis, Israel Vinicius Gouvêa de Souza, Paulo Raimundo Abade Silva, Marinho Gonçalves, Ana Cecília, Ana Graciela Conceição da Silva, Jussilene Santana.
Status: Nos cinemas

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Amnésia

O filme que estreia este blog é de um dos meus diretores favoritos destes novos tempos, Christopher Nolan - mais conhecido por A Origem (Inception, 2009) e Batman Begins (2005). Muito já tinham me falado sobre e recomendado Amnésia (Memento, 2001), e só recentemente tive a oportunidade de conferir. De tão empolgada que fiquei com o filme, assisti por três vezes seguidas, e olha, se tivesse tempo assistiria mais. É uma obra de gênio mesmo.

Leonard Shelby (Guy Pearce) é um ex-investigador de seguros que, após uma tentativa de assalto na qual sua esposa foi violentada e assassinada, adquire como sequela a perda de memória recente (amnésia anterógrada), que faz com que ele se esqueça dos fatos tão logo eles aconteçam - ele só se lembra das coisas ocorridas antes do acidente. Mesmo assim, ele se incumbe da missão de vingar a morte da esposa, iniciando uma investigação na busca dos culpados. Partindo do pressuposto que não pode confiar em ninguém, apenas nele mesmo, Leonard se guia através de notas escritas à tinta permanente em papel e tatuando-as no próprio corpo, a depender da validade dos fatos que for descobrindo. A questão é: até que ponto Leonard pode, realmente, confiar nos próprios instintos sem se trair? 
Imagem do filme Amnésia (Memento, 2001)
                                                        

O tema, só por si, já é instigante, mas o diretor Christopher Nolan foi além: "Amnésia" é conhecido como "o filme que foi filmado de trás pra frente", pois a montagem do filme é tal que as cenas são apresentadas numa sequência cronológica reversa, ou seja, segue uma ordem cronológica, mas de trás pra frente, de forma que o espectador sente-se exatamente como o protagonista, pois que ele não se lembra que as ações ocorreram, muito menos em que ordem ou porque aconteceram. 
Muito se comenta que, se o filme fosse apresentado numa sequência cronológica tradicional, não seria tão memorável, mas ainda que o espectador decida assistir ao filme nesta ordem (no DVD há essa opção) - e eu o fiz na terceira vez em que assisti ao filme - não vai deixar de se surpreender com a obra. Claro que a manobra usada por Nolan é o grande diferencial, por exemplo, de outras obras que abordaram temas parecidos (como Como se fosse a primeira vez, Procurando Nemo), mas o roteiro também é forte o suficiente para destacar o filme, ainda que seja, como escreve Karen Krizanowich em 1001 filmes para ver antes de morrer, para exigir "a atenção da plateia e, no entanto, no espírito mais verdadeiro do filme noir, não lhe dá recompensa alguma." 
Portanto, corra até a locadora mais próxima, prepare sua pipoca e teça as suas teorias! E não deixe de comentar sobre o que achou ;)

Título: Amnésia (Memento, 2001)
Gênero: Mistério, suspense
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Elenco: Guy Pearce, Carrie Anne-Moss, Joe Pantoliano, Stephen Tobolowsky, Callum Keith Rennie, Harriet Sansom Harris, Larry Holden
Status: Em DVD