Desde que comecei a me interessar em assistir à cerimônia do Oscar, é sempre aquela ansiedade, como se eu própria fosse uma indicada e não uma mera espectadora. Quando os segundos antecedem a abertura dos famosos envelopes, fico numa expectativa gigantesca para que seja o nome daquele para o qual estou torcendo, e quando é bato palmas e solto gritinhos de animação. Financeiramente, não ganho nada com isto, mas confesso que a emoção que sinto realmente compensa.
No entanto, desde que acompanho o Oscar, nunca me senti tão satisfeita com os resultados - no geral, porque sempre tem aquelas decepções em relação as decisões da Academia. O Artista e A Invenção de Hugo Cabret, dois dos filmes pelos quais eu mais me encantei da lista do Oscar, foram os grandes vitoriosos da noite, cada um com cinco estatuetas; A Dama de Ferro, Millenium - Os Homens que não Amavam as Mulheres, Meia-Noite em Paris, A Separação e Histórias Cruzadas também foram premiados.
Foi uma das cerimônias mais emocionantes, talvez porque as disputas estavam mesmo muito acirradas. Nos bolões em que participei, por exemplo, sempre ficava na dúvida em quem escolher para Melhor Atriz - Meryl Streep ou Viola Davis? Ambas mereciam muito (não que Glenn Close, Michelle Williams e a grata surpresa Rooney Mara não merecessem também); e por mais que Meryl já tenha vencido a estatueta outras vezes e Viola não, é inegável a monstruosa transformação de Meryl Streep em Margaret Thatcher (até o sotaque britânico ela adquiriu, como pode!) e, afinal, já fazia mais de dez anos que Meryl tinha sido premiada, apesar de sempre ser indicada, ano após ano. Uma coisa é certa: eu ficaria contente com qualquer uma que fosse vencedora, mas quando Meryl subiu no palco para receber seu prêmio e todos os presentes a saudaram de pé, ou quando Octavia Spencer foi premiada como Melhor Atriz Coadjuvante (por Histórias Cruzadas) foi inútil conter as lágrimas.
|
| Octavia Spencer se emociona ao receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "Histórias Cruzadas" |
Achei bem equilibrada a premiação. Os principais prêmios técnicos foram para Hugo - Fotografia, Edição e Mixagem de som, Direção de arte e Efeitos Visuais (prêmio esse que, dentre os demais indicados, foi o que menos mereceu...); O Artista, meu grande favorito, ficou com os principais dos principais - Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Trilha Sonora e Figurino. Estava torcendo muito para que ganhasse os três principais, mas mesmo assim não deixei de me surpreender por Michel Hazanavicius ter vencido Scorsese e Jean Dujardin ter vencido George Clooney, apontado como favorito - embora Jean tenha se destacado muito mais que Clooney, a Academia é conhecida por seu patriotismo e embora O Artista tenha Hollywood como pano de fundo e seja falado (ou melhor, escrito) em inglês, a equipe do filme não deixa de ser francesa. E Jean Dujardin não deixa de ser francês. No fim das contas, que bom que foram imparciais e deixaram o valor artístico falar mais alto. Afinal, O Artista venceu por seus méritos próprios.
![]() |
| Meryl Streep e Jean Dujardin, vencedores dos prêmios de Melhor Atriz e Melhor Ator |
E apesar de o embate entre Hugo e O Artista ter sido acirrado e acabado em empate, Millenium também saiu com uma estatueta de Edição. O que foi verdadeiramente uma surpresa; apesar de merecido (a mesma equipe responsável foi vencedora também em 2011, por A Rede Social), achei que Millenium ia sair de mãos vazias nessa cerimônia. Woody Allen venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original por Meia-Noite em Paris (já fazia um tempo que ele não era premiado e nem compareceu à cerimônia); Histórias Cruzadas levou o de Melhor Atriz Coadjuvante para Octavia Spencer, A Dama de Ferro o de Melhor Atriz, para Meryl Streep e Christopher Plummer, Melhor Ator Coadjuvante, por Toda Forma de Amor e A Separação, excelente filme iraniano, venceu Melhor Filme Estrangeiro.
Nós brasileiros, sim, saímos de mãos abanando mais uma vez. Das outras vezes foi até compreensível a entrega para outros indicados, mas numa disputa entre dois indicados apenas e em que a letra da canção de Rio é muito melhor que a dos Muppets, não tem outra coisa a se pensar a não ser que foi feita uma injustiça. Talvez quisessem compensar pelo fato de Rango ter levado Melhor Animação, talvez simplesmente não consigam premiar o Brasil. Desta vez o patriotismo volta a falar mais alto. Coisas do Oscar.
A cobertura completa do Oscar 2012 pode ser vista no IMDb.
A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)
![]() |
| Cartaz de "A Invenção de Hugo Cabret" (Filmow) |
Seguindo a minha maratona de assistir aos filmes da lista do Oscar, corri para ver Hugo - campeão de indicações ao Oscar, sendo 11 ao todo. Não tinha muitas expectativas, mas sendo a direção do Scorsese, já sabia que o resultado seria bom - apesar de Hugo fugir um pouco ao estilo de suas obras. Porém, na verdade o que aconteceu foi que ao final eu me vi encantada.
Hugo Cabret é um órfão que vive em uma estação de trem, onde também trabalha escondido do inspetor, um homem amargurado da guerra cuja alegria é mandar as crianças que não têm pais para o orfanato. Antes de seu pai, um relojoeiro, morrer, Hugo o ajudava a consertar um autômato que ele encontrara num museu. Acreditando que o robô continha uma mensagem do pai e para não se sentir tão sozinho, o menino decide concluir o trabalho inacabado de seu pai, apesar das circunstâncias lhe serem adversas.
![]() |
| Asa Butterfield e Jude Law em cena de "Hugo" |
Assim como O Artista, Hugo também presta uma adorável homenagem ao Cinema, ao retratar a figura de Georges Méliès e celebrar suas obras. Associando o Cinema a uma "fábrica de sonhos", a história de Hugo cruza com a de Méliès, retratando a sua paixão pela 7ª Arte e em como sua contribuição - que, no filme, ele acreditava ter sido esquecida - influenciara tantas gerações que nutriram pelos filmes o mesmo amor que ele. Da mesma forma, o filme permite àqueles espectadores que ainda não tiveram contato com o trabalho de Méliès a conhecer algumas de suas obras, como uma das mais destacadas: "Viagem à Lua".
Impossível para um cinéfilo não se sentir contemplado com tantas referências - que não são apenas cinematográficas, como também literárias. Isabella, a "companheira de aventuras" de Hugo, é criada como neta de Papa Georges, que tem uma pequena loja na estação de trem, e vive através dos livros as aventuras que gostaria de ter na sua vida - até conhecer Hugo. É muito interessante como ela associa as suas novas descobertas às histórias que conhecera nos livros.
![]() |
| Asa Butterfield e Chlöe Moretz em cena de "Hugo" |
Todos os prêmios em que Hugo venceu foram merecidos. O filme tem um resultado impecável principalmente devido ao cuidado que é perceptível em cada cena. Não vi em 3D, mas quem viu garante que vale a pena. Neste ínterim, Hugo também venceu Efeitos Visuais (embora, como disse acima, outros indicados tenham sido negligenciados).
Os atores por sua vez têm performances carismáticas - especialmente as crianças -, seus personagens rapidamente cativam e emocionam o espectador. É, em suma, um filme lindo e gracioso. Tem aquela espécie de mágica que só o cinema sabe como proporcionar. Vale a pena sonhar com Hugo.









