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| Créditos a : AdoroCinema |
Sim, o "Que Filme Vi Hoje?" ainda ta de pé! E vai continuar, no que depender de mim. Se tem uma coisa sobre a qual gosto muito de conversar e, mais do que isso, dissecar mesmo o assunto a ponto de não sobrar mais nada a respeito pra falar e, ainda assim, continuar falando o que já foi dito, é sobre filmes. Porém tempo, tanto pra mim quanto para um interlocutor, ainda mais pra falar sobre filmes horas a fio tá cada vez mais difícil, portanto recorri a este blog - espaço no qual eu poderia falar, sem compromisso, sobre filmes que me interessam de alguma forma que seja, e no qual pessoas que possuem o mesmo interesse poderiam também tomar parte. E, justamente para cobrir essa questão do tempo e também para tornar o blog mais dinâmico, pensei numa parceria e falei com minha colega de faculdade, que topou fazer o blog comigo. No entanto, Ana Paula está com um problema pessoal "daqueles" e ainda não teve tempo para fazer a sua colaboração por aqui. E quanto a mim, lembram da questão da falta de tempo que mencionei, né? Mas farei o possível com o mínimo de tempo que tiver para não ficar tanto tempo sem alimentar o blog.
Bem, dito isto, vamos ao post de hoje: finalmente está nos cinemas a tão aguardada adaptação da obra homônima de Jorge Amado, cujos roteiro e direção são assinados pela neta, Cecília. A homenagem é para Jorge, mas também é um presente para todos aqueles que um dia se emocionaram e foram marcados de alguma forma pelo livro - e, quem sabe, um convite aos que ainda não tiveram essa maravilhosa experiência, de procurarem o livro após terem visto o filme.
Na Salvador dos anos 1930, um grupo de meninos (a maioria abandonados ou órfãos) vive em um trapiche abandonado e, sob a liderança de Pedro "Bala" - de quinze anos de idade - praticam furtos, entre outros pequenos crimes, nas regiões de classe alta da cidade, para garantir a comida e a sobrevivência deles, em suma. Enquanto praticam os furtos, não são vistos como crianças ("parece criança, mas não é; são todos bandidos", diz um policial no filme), mas como deliquentes - para os quais a polícia está atrás apenas de uma pequena "desculpa" para colocar no reformatório. Inclusive, no livro, anterior às três partes nas quais a história é dividida, segue-se um prefácio, no qual notas de jornal (fictício) apresentam os "capitães da areia" principalmente como bandidos.
Quando se encontram no trapiche, no entanto, "Professor" (o que sabe ler) lê histórias para os colegas, despertando neles a oportunidade de sonhar com uma vida diferente, com um futuro melhor: "Volta Seca", por exemplo, (nem todos têm seu nome "verdadeiro" revelado na obra, talvez porque os que foram abandonados, por exemplo, realmente não o tivessem), afilhado de Lampião, revolta-se com as autoridades e sonha em ser cangaceiro; "Professor" (cujo nome é João José), além de saber ler, tem grande talento e vocação para pintura; "Sem-Pernas", um garoto coxo, que às vezes aplica golpes junto aos demais capitães da areia em casas de família rica como um garoto órfão para depois roubá-los - é talvez o que mais sinta falta de uma família, justamente por ser acolhido e experimentar por períodos tão breves como é de fato ser uma criança amada; Pirulito, que tem uma grande fé religiosa - talvez onde deposite a esperança de um futuro melhor; o próprio Pedro "Bala", cujo pai era líder de greves, e que segue o mesmo destino do pai. Ou, quando aprendem capoeira com o Querido-de-Deus, amigo e também protetor dos meninos, ou, principalmente, quando um carrossel chega à cidade, eles esquecem por um momento que são os capitães da areia, que um ao outro é tudo o que eles têm, e se permitem experimentar ser as crianças que de fato são.
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| Crédito da foto: AdoroCinema |
E é então que, principalmente para nós que tanto gostamos de ter uma "opinião formada sobre tudo", um julgamento pronto e preparado sobre os tantos problemas a respeito de nossa sociedade, a obra de Jorge Amado mostra que nada é tão simples assim: bandido ou vítima, deliquente ou criança, culpado ou inocente etc. Afinal de contas o ser humano não é unidimensional; é muito mais complexo do que um simples julgamento baseado em determinada ação poderia determinar. Um amigo que viu o filme comigo comentou que, quando os meninos praticavam os roubos, torcia para que eles não fossem pegos, apesar de "a sua consciência" dizer que roubar não é certo e que eles precisavam de algum tipo de coerção.
Claro, não defendo que roubar seria a solução (nem que Jorge Amado defendia isso), obviamente me senti lesada e impotente quando fui assaltada, por exemplo, mas como afirmar que o ladrão nasceu ladrão e que o remédio é morrer apanhando? Pois, quando Pedro Bala é enviado para o reformatório, por exemplo, qual que é o método empregado para "corrigir" o garoto? Longos períodos sem comida e sem água, em cativeiro na cafua, misturado com suas fezes e urina, porrada. Isso, sim, iria fazer com que ele, um garoto de 15 anos, parasse de roubar. Olhando para os dias de hoje, estamos longe de dizer que já passamos desses dias. Então, como vemos, a questão está muito longe de ser uma equação simples (roubou = porrada).
Enfim, apenas alguns dos muitos questionamentos e reflexão que a leitura de Jorge Amado propicia - e isso tendo em consideração que o livro foi publicado pela primeira vez em 1937, apesar de proibido pela censura, e o filme, lançado em 2011 - além do emocional que envolve o leitor - questão que faltou um pouco no filme. Os atores escolhidos para dar vida aos capitães da areia dividem opiniões, principalmente para os que já eram familiarizados com a obra. Eu, particularmente, não gostei dos diálogos "texto decorado", claramente perceptível nas cenas, fruto do amadorismo dos jovens atores, mas não desaprovo o elenco formado - a exceção seria o intérprete de "Sem-Pernas", que na minha leitura era de longe o personagem que mais me emocionava com a sua tristeza e carência, e que no filme foi o que menos teve profundidade. Mas gostei da postura de líder do Pedro Bala na tela grande, do olhar expressivo do Professor, que de fato era um professor para os meninos, do jeitão malandro do "Gato", da aparente despreocupação diante da vida do "Boa Vida", enfim; e o que falar de Dora, ou melhor, da intérprete de Dora (a atriz Ana Graciela Conceição da Silva): foi a que, verdadeiramente, soube captar toda a doçura e determinação da sua personagem, única figura feminina no meio de tantos garotos. Sua presença é marcante no filme e sem dúvidas é a atuação que mais se destaca. Porém, nem mesmo Dora, nem sua relação com os capitães da areia (em especial, com Pedro Bala) teve a profundidade que merecia.
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| Crédito da foto: AdoroCinema |
Mas a essência da obra, essa foi preservada, essa se encontra nas telas e é sentida por todos - posto que a história, e toda a reflexão que ela traz, continua mais atual do que nunca - moldada por uma fotografia arrebatadora de tão intensa e embalada por uma trilha sonora composta por Carlinhos Brown que é a cara da Bahia - como Jorge Amado.
Título: Capitães da Areia
Gênero: Drama
Direção: Cecília Amado e Guy Gonçalves
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda
Elenco: Jean Luis Souza de Amorim, Romário Santos de Assis, Israel Vinicius Gouvêa de Souza, Paulo Raimundo Abade Silva, Marinho Gonçalves, Ana Cecília, Ana Graciela Conceição da Silva, Jussilene Santana.
Status: Nos cinemas
Título: Capitães da Areia
Gênero: Drama
Direção: Cecília Amado e Guy Gonçalves
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda
Elenco: Jean Luis Souza de Amorim, Romário Santos de Assis, Israel Vinicius Gouvêa de Souza, Paulo Raimundo Abade Silva, Marinho Gonçalves, Ana Cecília, Ana Graciela Conceição da Silva, Jussilene Santana.
Status: Nos cinemas



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